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13-02-2018

Defesa também Atraca

Lateral esquerdo fez o único golo do primeiro jogo entre FC Porto e Liverpool, disputado nas Antas em maio de 1968


Em 1968, com José Maria Pedroto no banco, o FC Porto defrontou pela primeira vez o Liverpool. O jogo, realizado no Estádio das Antas, acabou com o triunfo dos Dragões (1-0), um mês antes da conquista da Taça de Portugal.

Em contagem decrescente para os oitavos de final da Liga dos Campeões, fase em que o FC Porto defronta o Liverpool, recordamos o primeiro jogo de que há registo entre os dois clubes. Foi num encontro particular, no dia 22 de maio de 1968, no Estádio das Antas, e os Dragões venceram com um golo marcado por Atraca.

Sob o comando de José Maria Pedroto, o FC Porto vivera uma temporada de muitos altos (até ao último terço do campeonato) e alguns baixos (fase final da prova), que arredaram a equipa da luta pelo título nacional, que tanta ilusão provocara.

Arbitragens infelizes, alguma falta de sorte e uma outra exibição menos conseguida comprometeram o objetivo no campeonato, mas sobrava a Taça de Portugal para conquistar. E o Mestre soube como fazê-lo, conduzindo a equipa até à final do Jamor, onde venceu o Vitória de Setúbal. Pelo caminho, nos “quartos” e nas meias-finais, eliminou Belenenses e Benfica.

Foi precisamente entre o final do campeonato e esta última fase da Taça de Portugal que o FC Porto recebeu o Liverpool. Frente a frente estavam os terceiros classificados das ligas portuguesa e inglesa. Os Reds – como são conhecidos os jogadores do Liverpool – apresentavam-se nas Antas como um dos grandes de Inglaterra (tinham sido campeões em 1965/66) e, como tal, favoritos. Mas foram surpreendidos pelo futebol ofensivo apresentado pela equipa de Pedroto, e jamais conseguiram o domínio que, certamente, esperariam.

Lê-se em “O Porto” (25/05/1968): “A equipa inglesa impressionou-nos favoravelmente pelo seu trato de bola, sentido prático, rapidez, colocação. Foi pena que se defendesse demasiado (por vezes com oito elementos, mas normalmente com seis) e não praticasse um futebol mais aberto”.

Seja porque era essa a estratégia delineada, seja porque sentiu o temor dos ingleses, a equipa do FC Porto soltou-se, apresentou um futebol ofensivo, jogando perto da área contrária, acabando por ser premiada com o golo de Atraca, que valeria o triunfo. E o lance capital do desafio é também salientado no comentário como exemplo da forma destemida como os portistas jogaram: “E repara-se na curiosidade de ser Atraca, o defesa-esquerdo, a obter o tento. Este facto demonstra que o FC Porto atuou ao ataque”.

A história, entretanto, tornaria ainda maior o Liverpool, também através de grandes conquistas nas provas da UEFA; pelas mesmas razões, também o FC Porto cresceria e subiria ao patamar dos maiores que têm lugar no Olimpo do futebol europeu. Segue-se mais um confronto de gigantes.

Herói improvável
O golo que valeu o triunfo do FC Porto foi marcado pelo defesa-esquerdo Atraca, aos 86 minutos, fazendo deste algarvio o herói improvável do encontro. João Eleutério Luís Atraca é o seu nome e chegou às Antas no ano de 1962, vindo de Faro. Apesar de assediado pelo Benfica, escolheu o FC Porto, sobretudo, porque fora destacado para cumprir o serviço militar no norte e seria mais fácil a desvinculação ao clube de origem (Farense), ao abrigo da lei de transferências militares.

A adaptação foi rápida, tanto que confessou ao jornal O Porto (fevereiro de 1962) gostar “desta gente, da Direção, dos camaradas e da massa associativa”. “Senti-me bem e resolvi ficar”. E ficou até final da temporada de 1968/69.

Disputou, com a camisola do FC Porto, 171 jogos oficiais (incluindo oito na então chamada Taça das Cidades com Feira, que deu origem à Taça UEFA), durante os quais marcou apenas três golos. Daí ter sido o herói improvável, numa era em que os laterais tinham como missão quase exclusiva defender. Desta vez, o defesa foi lá à frente dar uma ajuda ao ataque e, à falta de quem tivesse mais pontaria, Atraca acertou na baliza de Ray Clemence, deixando o seu nome para a história como o primeiro portista a conseguir um golo frente ao Liverpool.

A consagração de Américo
O guarda-redes Américo começou por ser a estrela da noite no relvado do Estádio das Antas. O campeonato português acabara (assim como o inglês) e, com o seu epílogo, consagrou-se o vencedor do prémio Somelos Helanca, atribuído ao melhor (e mais regular) jogador da prova, o portista Américo.

Antes de o jogo começar, o guarda-redes titular dos Dragões (e, na altura, também da seleção nacional) recebeu 20 mil escudos (cerca de 6.500 euros nos dias de hoje, tendo por base o índice de atualização de preços no consumidor) e o FC Porto um troféu em prata, avaliado em mais de 80 mil escudos (cerca de 26.000 euros, pelo mesmo índice).

O então prestigiado prémio resultou da parceria entre a empresa Somelos Helanca e o jornal A Bola, cujos jornalistas atribuíam, em todos os jogos, pontuação aos futebolistas utilizados. A luta foi, desde o início da temporada, entre o portista e o benfiquista Eusébio, sorrindo no final ao guarda-redes do FC Porto, pelo que a noite do encontro com o Liverpool foi também uma oportunidade para os adeptos portistas homenagearem um dos melhores guarda-redes de sempre do FC Porto e do futebol português.

Ficha do jogo

FC PORTO-LIVERPOOL,1-0
Jogo no Estádio das Antas
22 de maio de 1968

Árbitro: Caetano Nogueira

FC Porto: Américo; Sucena, Bernardo da Velha, Valdemar, Atraca; Pavão, Gomes; Jaime (Rolando, 45’), Djalma (Artur Augusto, 87’), Pinto (Manuel António, 23’) e Nóbrega (Malagueta, 45’).

Liverpool: Clemence; Lawler, Wall, Ross, Yeats; Strong, Calhagham; Arrowsmith, Hateley, St. John e Graham.

Marcador: Atraca (84’)

Texto publicado na edição de janeiro da Dragões, a revista oficial do FC Porto, a que pode aceder aqui.

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