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Parte 4 da entrevista a André Villas-Boas: formação, Cardoso Varela, Eirik Granaas, scouting e empresários

Na quarta parte da entrevista ao Jornal de Notícias, O Jogo e TSF, André Villas-Boas revela que as mudanças na formação do FC Porto “foram muitas e profundas” e recorda que apesar de o Clube se ter sagrado Campeão Nacional de seniores, juniores, juvenis e iniciados “não é necessário ganhar títulos na formação para ter uma boa formação”: “Desde 2010/11, em 39 títulos discutidos na formação, o FC Porto só tinha ganho seis”.

“Alcançar o pleno é algo muito reconfortante para o futuro. O bingo do pleno é que estes miúdos cheguem à equipa principal”, afirmou o presidente seguro de que “o FC Porto fez o barulho necessário para que um caso como o do Cardoso Varela não volte a acontecer” e de que “o crescimento exponencial dos clubes da Premier League” faz com que o FC Porto tenha “que se antecipar cada vez mais aos outros e ir buscar jogadores com 16 e 17 anos” como Eirik Granaas, “um diamante por lapidar”.

Mudanças no futebol de formação
“Foram muitas e profundas, agora queremos que se prolonguem no tempo. Esse também é o objetivo na equipa sénior, porque não queremos que o FC Porto deixe mais o lugar que é seu. Não é necessário ganhar títulos na formação para ter uma boa formação, uma visão, um projeto identificativo do que é o jogador à Porto e um projeto identificativo do que é o scouting dos jogadores para a formação, além de tudo o que está relacionado com o desenvolvimento técnico específico de um jogador formado no FC Porto que quer chegar à equipa principal. Neste campo encontrámos estabilidade desde a chegada do José Tavares, um homem que conhece profundamente a casa e que gradualmente tem implementado o seu projeto e a sua visão formativa para o FC Porto. Desde 2010/11, em 39 títulos discutidos na formação, o FC Porto só tinha ganho seis. Alcançar o pleno é algo muito reconfortante para o futuro. O bingo do pleno é que estes miúdos cheguem à equipa principal, mas esse projeto é muito mais a médio e a longo prazo. Quanto tempo tardarão e em que condições vão chegar à equipa principal os Campeões Nacionais de sub-15? A afirmação deste pleno só se consumará dentro de quatro anos, quando virmos, por exemplo, o Tiago Portugal chegar à equipa principal do FC Porto. Isso seria a consolidação desse projeto formativo que, na minha opinião, corresponde sempre a 10 anos. Espero que o José Tavares esteja à frente do projeto formativo do FC Porto nos próximos 10 anos. Se vincularmos isto a mandatos, ou a anos de mandato, serão 12 anos, seguindo as melhores práticas. Neste processo de 12 anos, quantos jogadores da formação do FC Porto chegarão à equipa principal com capacidade para ganharem títulos e para se afirmarem como jogadores do FC Porto?”

A saída de Cardoso Varela
“No caso do Cardoso Varela, o FC Porto fez o barulho necessário para que um caso como esse não volte a acontecer. O Cardoso Varela não está sentado aqui ao meu lado, mas estou convicto de que ele assume ter cometido um erro. Não por culpa dele, mas pela ganância de outros que o levaram a sair do FC Porto. Provavelmente, essa ganância terá sido vendida à sua família e a outras famílias pobres, com grandes dificuldades económicas, que se deixaram levar por palavras. Não quero dizer que essas mudanças por vezes não funcionem, porque por vezes também funcionam, mas no caso do Cardoso Varela não funcionou. O jogador está perdido na Croácia, na equipa B do Dinamo Zagreb, à espera de um futuro melhor. Certamente que ele lamenta ter dado este passo, principalmente quando o FC Porto defendeu de forma muito clara o seu futuro. O Vítor Bruno disse-lhe que seria integrado na pré-época da equipa principal, tal como o Rodrigo Mora foi, e custa ver isto acontecer a um talento que podia ter-se afirmado no FC Porto, mas que se perdeu. Depois há outra parte, que está relacionada com o assédio a jovens, que já é uma competição. Isto está relacionado com o crescimento exponencial dos clubes da Premier League, que neste momento têm redes de scouting absolutamente infalíveis. Não só as redes de scouting, como também a análise de dados, as ferramentas de dados, as ferramentas de filtro desses dados, que lhes permitem chegar ao talento muito mais rapidamente do que os clubes portugueses, que normalmente eram utilizados como pontes para chegarem a esses clubes. Isso obriga-nos a defender os nossos ativos, com melhores condições, melhores ofertas e vendendo melhor um projeto formativo de futuro.”

Eirik Granaas
“Aí houve um acordo total entre clubes. O FC Porto pagou caro por um miúdo de 16 anos, por um potencial jogador de futuro, que vem para uma escola melhor, onde a competição é maior, para se desenvolver. Nada foi feito à revelia do Fredrikstad, houve acordo por um jogador altamente talentoso que vem para o FC Porto à procura de se afirmar. O FC Porto não deixa de pagar cerca de 1,8 milhões de euros por um diamante por lapidar.”

Formação e scouting
“Ao longo dos anos, o FC Porto sempre se afirmou na formação e no scouting. Sempre fomos capazes de convencer os melhores jogadores do mundo, que depois se afirmaram mais tarde, a passarem pela escola FC Porto. Nos últimos 20 anos, desde a altura do third-party ownership, quando havia investidores que eram donos do espaço dos jogadores, o FC Porto distinguiu-se por conseguir atrair o melhor talento do mundo, desde logo James Rodríguez, Falcao, Hulk, etc. Esses jogadores vieram para o FC Porto, afirmaram-se e tornaram-se no melhor talento do mundo. Tudo isto em simultâneo com a escola formativa dos jogadores do FC Porto, como o Ricardo Carvalho, o Vitinha, o Rúben Neves, o Diogo Costa… Na sua linha de scouting, o FC Porto tem que se antecipar cada vez mais aos outros e ir buscar jogadores com 16 e 17 anos, enquanto eles custam entre os 2 e os 10 milhões de euros. Porque, a partir daí, custam entre os 10 e os 20, os 20 e os 30, os 30 e os 40, o que já não é possível. Jogadores como o Estêvão, o Endrick, o Julián Alvarez ou o Froholdt já custavam entre 20 a 50 milhões. Esse custo tem de ser previsto nas redes de scouting do FC Porto, por isso antecipamo-nos para podermos ser competitivos.”

Relações com os empresários
“O FC Porto trabalha com todos. Esse é outro dos grandes fenómenos em mutação no futebol atual. Primeiro porque os jogadores passam a transitar entre agências, ou seja, a relação de compromisso e de amor com o empresário que te identificou primeiro e que te vai levar até o fim da carreira deixou de existir. Os jogadores são assediados por outros agentes, com compensações financeiras, para virem para as suas agências, porque esses agentes também fazem a sua própria análise do talento e do que ele pode vir a render. Isso mudou radicalmente, hoje em dia há cortes de relações umbilicais com agentes que descobriram um talento e que poderiam ficar com esse talento até o fim da sua carreira. Os jogadores agora são assediados por outros agentes e por isso vemos muitas trocas. O segundo fenómeno que se passa atualmente no futebol mundial é que os fundos começaram a comprar as agências dos jogadores. Há um, dois ou três fundos que dominam praticamente 20 agências de jogadores de futebol. Por isso poderemos ver mudanças ainda mais dinâmicas e específicas entre clubes, pelos interesses de determinados fundos em colocar determinados jogadores em determinados clubes. Tudo isto são novas problemáticas e novos fenómenos. O FC Porto relaciona-se com todos. A primeira coisa que fazemos é tentar saber quem é o agente do jogador, o seu representante. Nem sempre o têm, por vezes têm familiares ou pessoas da sua confiança e, a partir daí, estabelecemos relações de cooperação. São relações económicas que têm a ver com as responsabilidades que o FC Porto tem de assumir perante esse agente para a representação do atleta.”

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