Parte 3 da entrevista a André Villas-Boas: rivais, centralização, arbitragem, Federação e Liga
Na terceira parte da entrevista ao Jornal de Notícias, O Jogo e TSF, André Villas-Boas confidencia que “a relação institucional com o Benfica é de grande elevação e respeito” - “é o clube que venceu mais Campeonatos Nacionais e é alguém que o FC Porto quer ultrapassar o mais rápido possível” - e constata que “isso não se passa com o Sporting simplesmente porque a liderança do Sporting entra num patamar de injúria, de calúnia e de vitimização para com o FC Porto”, algo que “não é possível tolerar”.
“Talvez o FC Porto seja um alvo útil para o Sporting, suportado por um conjunto de órgãos de comunicação social com maior afinidade clubística com o Sporting”, constata o presidente “satisfeito com o que foi acordado em sede de Assembleia Geral da Liga” quanto à centralização dos direitos televisivos, pois “os três grandes tinham de se defender nesta chave de repartição”.
No futuro próximo “há uma série de novas problemáticas que urgem resolver” - como a “uniformização dos critérios de arbitragem e da tecnologia VAR” - e André Villas-Boas quer ver “a tecnologia ao serviço da verdade desportiva” após “uma época que não foi positiva” a esse nível: “Todos queremos melhorias, mas também me parece evidente que determinados grupos de comunicação social vivem das más decisões arbitrais para criar programas e conteúdos que atraem pessoas a vê-los e suscitam discussão. Da parte da comunicação social há um empolamento destas decisões, ou falta delas, porque as mesmas causam controvérsia, causam caos, trazem atenção e trazem receitas”.
As relações com os rivais
“A relação institucional com o Benfica é de grande elevação e respeito. Há mais exageros da minha parte enquanto presidente da instituição FC Porto do que propriamente do Rui Costa na minha direção. Recentemente fiz um mea culpa e é algo de que me tento retratar sempre que posso, por isso faço-o novamente aqui. O Benfica é um clube histórico a nível nacional e a rivalidade com o FC Porto é histórica, é o rival máximo do FC Porto. É o líder histórico no número de Campeonatos Nacionais, mas não no número de títulos nacionais e internacionais no futebol português. É o clube que venceu mais Campeonatos Nacionais e é alguém que o FC Porto quer ultrapassar o mais rápido possível. Tudo o que é mágico e envolve o FC Porto e Benfica é algo que devemos dignificar na rivalidade histórica. Isso não se passa com o Sporting simplesmente porque a liderança do Sporting neste momento entra num patamar de injúria, de calúnia e de vitimização para com o FC Porto e isso é algo que não podemos tolerar. Apesar de haver alguma unificação do ponto de vista estratégico sobre o que o futebol português precisa e de estarmos de acordo nomeadamente sobre a centralização dos direitos televisivos, a realidade é que, fruto dessa vitimização permanente, das injúrias e das calúnias que semanalmente invocam contra o FC Porto, não há relação possível nem pode haver relação possível.”
Com o Sporting não há relação possível
“Talvez o FC Porto seja um alvo útil para o Sporting, suportado por um conjunto de órgãos de comunicação social com maior afinidade clubística com o Sporting, que tenta filtrar e opinar, orientado por uma visão estratégica e por uma voz popular para o Sporting. Tudo o que feito no Sporting pelo presidente Frederico Varandas é também uma transformação do próprio Sporting, é um clube recentemente vencedor, que se afirma e que foi construído para se tornar vencedor, pois não o era e vivia sempre numa instabilidade politico-desportiva muito evidente. Isso é um sucesso e um mérito do próprio, mas não pode é viver na permanente vitimização, injúria e calúnia para com o FC Porto, que teve o seu expoente máximo no caso do pavilhão e do cheiro a amoníaco, no qual o Sporting ultrapassou todos os limites do razoável. O FC Porto entregou toda a documentação bem sustentada ao Ministério Público e o mais provável é o arquivamento desse caso inventado pelo Sporting. A partir daí, o FC Porto irá com tudo contra o Sporting relativamente à injúria sobre o seu bom nome.”
Frederico Varandas
“Pela personalidade do presidente do Sporting, não vejo possibilidade de haver algum tipo de relacionamento. São tipologias de personalidade com as quais não consigo dar-me nem respeitar.”
“Eles têm medo”, afirmou o presidente do Sporting
“Seguramente que essa frase terá sido utilizada pelos jogadores e pelo treinador. Há sempre estratégias de motivação que os líderes utilizam para fazer transcender os atletas, isso faz parte do desporto. É a forma como arranjamos pontos motivacionais jogo a jogo para trazermos a vitória. Essa pergunta é mais para o mister Farioli do que para mim. Sempre fui um líder muito mais emocional e muito mais irracional também. Sempre foram características da minha liderança enquanto homem emotivo que sou. Seguramente que o André Villas-Boas treinador teria utilizado, mas não sei se o Francesco Farioli terá feito ou se o fez da mesma forma que eu.”
A centralização dos direitos televisivos
“Para já, há uma concessão dos grandes relativamente a essa chave. O FC Porto e o Sporting, neste caso, porque o Benfica esteve fora da mesma, houve um corpo comum de ideias sobre a centralização em sede de Liga. Houve a necessidade de baixar as próprias expetativas relativamente à mesma, respeitando um primeiro ciclo de venda dos direitos audiovisuais, no qual obrigatoriamente tínhamos de ceder perante os outros e de ceder de um contrato anterior para um novo contrato. É um risco também, porque se algum dia um dos três grandes cair na quarta posição pagará pelo fator performance desportiva que está na chave de repartição. Estou satisfeito com o que foi acordado em sede de Assembleia Geral da Liga, mas falta ir a mercado e chegarmos aos números que pensamos que o futebol português vale. Esse número situa-se entre os 200 e os 250 milhões de euros. Era um número perfeitamente alcançável para o futebol português, mas evidentemente que pode oscilar. Queremos que seja construtivo de um primeiro para um segundo ciclo e que vá em crescendo, mas para ir em crescendo é fundamental que o futebol português melhore a sua transversalidade relativamente a outras problemáticas, desde logo a qualidade das suas infraestruturas, a qualidade da tecnologia VAR, a fiscalidade que permitirá aos clubes portugueses terem um pouco mais de fluxos de caixa para gerirem em futuros investimentos. Há uma série de novas problemáticas que urgem resolver, desde logo o fair-play financeiro, porque não podemos ter clubes da Primeira Liga a submeter PER’s enquanto há outros que estão sujeitos a licenciamento para disputarem as competições europeias e que querem ser cumpridores, mantendo o seu bom nome e a sua palavra e todos os compromissos em dia. Esses clubes estão em claro desfavorecimento relativamente a clubes que na Primeira Liga estão capazes de se submeter a Planos Económicos de Revitalização. É algo que preocupa e que não defende bem a qualidade do produto do futebol português.”
Os três grandes são o motor do futebol português
“Há que ser criativo na forma como se vendem os direitos. Isso é uma pergunta mais para o André Mosqueira do Amaral (diretor executivo da Liga Portugal), que tem estado ativo na venda do produto do futebol português. Acho que há novas maneiras de criarmos mais conteúdos e de os clubes meterem mais ativos no processo de centralização dos direitos televisivos, por isso é que o FC Porto tinha de oferecer resistência a qualquer outra proposta, porque os três grandes, apesar de tudo, são o grande motor do futebol português e não temos o comportamento regional que têm outros países, nem os clubes nacionais têm o poder que outros clubes têm noutros países e noutras geografias. Enquanto motor daquilo que é a dinâmica do futebol português, os três grandes tinham de se defender nesta chave de repartição. Agora temos de meter mais ativos também para que cheguemos aos valores que ambicionamos.”
Os licenciamentos e a tecnologia VAR
“Sobretudo é necessário mudar o licenciamento ou as exigências do licenciamento. Acho que essa é uma preocupação que agora surge, muito por culpa do que aconteceu com o FC Porto B na época passada. A uniformização da tecnologia VAR em todos os estádios portugueses é premente, esse é o primeiro passo. Antes de passarmos ao passo tecnológico, há que uniformizar a tecnologia VAR em todos os estádios, com a mesma qualidade e o mesmo número de câmaras. Depois há a melhoria da tecnologia e das ferramentas utilizadas pela tecnologia VAR, desde logo a linha de golo, foras de jogo semiautomáticos. De que investimento e de quanto tempo necessitamos para termos essas tecnologias dentro do futebol português? As mesmas devem estar vinculadas à centralização numa parceria que podia ser feita entre a Federação Portuguesa de Futebol e a Liga Portugal para suportarem os custos iniciais deste tipo de investimentos. É uma das grandes problemáticas que os clubes levantam relativamente à uniformização da tecnologia VAR. Ultrapassadas essas problemáticas, o produto do futebol português melhora, há menos caos nos jogos, melhores decisões arbitrais. É a tecnologia ao serviço da verdade desportiva e são coisas com as quais nos devemos debater. Não podem haver casos como houve em jogos do FC Porto B em que um fora de jogo evidente não pode ser considerado fora de jogo devido à exposição à luz solar e ao posicionamento da câmara. É patético e algo que temos de combater imediatamente. Fizemos muito barulho no ano passado e agora temos finalmente a Federação Portuguesa de Futebol connosco, pois o Pedro Proença foi recetor do nosso movimento.”
A qualidade dos árbitros
“A uniformização dos critérios de arbitragem é uma das grandes problemáticas do futebol europeu e mundial. Essa é uma problemática que nos abrange. Eu faço parte do Comité de Leis do Jogo da Associação Europeia de Clubes e as problemáticas são transversais desde o futebol português até ao futebol europeu. Há uma tentativa imediata de uniformizar critérios, esse é o ponto fundamental. Desde a tomada de posse do presidente da Federação Portuguesa de Futebol, Pedro Proença, houve uma liderança bicéfala do Conselho de Arbitragem que não funcionou, com uma exposição pública e mediática dos árbitros, com diferentes identificações do critério em situações que nos parecem similares e que acabaram por confundir os próprios árbitros, levando a uma deterioração evidente da qualidade da arbitragem e dos critérios em determinados lances. Lutamos todos por uma uniformização clara dos critérios de arbitragem: o que é um penálti, o que é mão, o que é falta, o que é falta para amarelo, o que é falta para vermelho, que no fundo são as grandes decisões. O presidente da Federação Portuguesa de Futebol pede tempo para o seu Conselho de Arbitragem funcionar na plenitude. Esta primeira época foi um falhanço evidente e, da parte dos próprios, houve um recuar relativamente à exposição dos árbitros, que eu acho que foi positivo. Veremos, na próxima época, que tipo de posicionamento vai ter esta liderança bicéfala do Conselho de Arbitragem relativamente ao que aconteceu em 2025/26. Não foi uma época positiva, foi difícil, todos nós queremos melhorias, mas também me parece evidente que determinados grupos de comunicação social vivem das más decisões arbitrais para criar programas e conteúdos que atraem pessoas a vê-los e suscitam discussão. Da parte da comunicação social há um empolamento destas decisões, ou falta delas, porque as mesmas causam controvérsia, causam caos, trazem atenção e trazem receitas.”
Causas e problemas da arbitragem
“O problema existe e é por isso que temos de combatê-lo. Na parte tecnológica não vi mais nenhuma sociedade desportiva tão preocupada como o FC Porto. Gosto de referir este exemplo porque fica muito claro: as câmaras utilizadas na Premier League para decidir foras de jogo são capazes de captar 60 frames por segundo, enquanto as câmaras portuguesas captam entre os 5 e os 10 frames por segundo. Essa é a diferença entre a bola estar colada ao pé ou estar ligeiramente afastada, o que é suficiente para que o momento do passe do jogador não seja quando a bola está colada ao seu pé, já tendo saído. A partir daí é muito mais difícil para quem opera a tecnologia VAR tomar decisões coerentes. Há uma parte que está relacionada com a tecnologia e há outra parte que está relacionada com a informação e com a educação dos próprios árbitros, que têm a ver com o Conselho de Arbitragem, com o próprio desenvolvimento dos árbitros e com a forma como são penalizados ou recompensados durante a época. Aí também vimos vários critérios dispares, vimos árbitros que apitam na Segunda Liga serem promovidos para um clássico e não vimos uma regularidade que compense os melhores. É para estas problemáticas que os clubes grandes chamam a atenção, os clubes grandes e todos os clubes, no fundo, porque todos queremos melhores decisões.”
O presidente da Liga Portugal
“Não fomos apoiantes desta candidatura, mas já felicitei publicamente o Reinaldo Teixeira pelo trabalho feito, principalmente na centralização dos direitos audiovisuais. Foi uma das grandes vitórias deste seu primeiro mandato, que termina em 2027. Agora levantam-se outras problemáticas. Digamos que o seu foco esteve sobretudo nesse campo, agora falta a parte que está relacionada com a competição, com a organização de jogos e com o fair-play financeiro. Suponho, e espero, que sejam bandeiras da sua candidatura a um segundo mandato. A partir daí, o FC Porto tomará uma posição relativamente a este ou outros candidatos.”
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