Parte 2 da entrevista a André Villas-Boas: Jorge Nuno Pinto da Costa, novas modalidades, associativismo, fontes de receita e o naming do Dragão
Na segunda parte da entrevista ao Jornal de Notícias, O Jogo e TSF, André Villas-Boas recorda a “obrigação e responsabilidade enorme” que é “honrar o passado de Jorge Nuno Pinto da Costa” e afirma que “do programa da campanha eleitoral de 2024 faltam cumprir duas promessas”: “A confirmação da criação da Fundação FC Porto”, que trará de volta o atletismo ao Clube, e “o potencial regresso do voleibol masculino”. Dado que “o futsal é o próximo passo”. o presidente pede “alguma tolerância aos sócios, porque o nível dos rivais é altíssimo” e lembra que “as modalidades andam com a casa às costas” enquanto não for construído o novo pavilhão.
Porque “o objetivo é que o FC Porto continue a ser um clube de associados”, André Villas-Boas assegura que “a entrada de capital estrangeiro e a presença de um acionista maioritário estão fora de questão”, mas revela que “o FC Porto está no mercado para tentar encontrar um naming” para o Estádio do Dragão e lança um repto: “Quando teremos competições intrafronteiriças que permitam aos clubes europeus gerar mais receitas?”
A família de Jorge Nuno Pinto da Costa
“Eu acho que a presença da família de Jorge Nuno Pinto da Costa é um motivo de aproximação ao nome de Jorge Nuno Pinto da Costa, sobretudo, e ao seu legado. Claro está que há o lado em que o FC Porto não se mete, que são as disputas que têm a ver com a sua família. O que nos une é Jorge Nuno Pinto da Costa e é Jorge Nuno Pinto da Costa que une todos os portistas. Tudo o que sucede relativamente à família são homenagens e um direito que lhes assiste de viver a glória que o seu pai atingiu no FC Porto. Agora, o FC Porto tem de estar alheio a tudo o que são as problemáticas de qualquer família, nesse campo não nos metemos. Convidamos com simpatia a família sempre que há algum evento em que achamos que seja importante que a mesma esteja presente, relacionada não só com a história de Jorge Nuno Pinto da Costa, mas também com a história do FC Porto, desde logo vencer títulos.”
Um legado para continuar a honrar
“Eu não tenho feito outra coisa que não honrar o passado de Jorge Nuno Pinto da Costa, essa é uma obrigação e uma responsabilidade enorme que tenho de ter. Tivemos uma afluência histórica ao memorial de Jorge Nuno Pinto da Costa, que foi lançado um ano após o seu falecimento, e essa afluência histórica também é o cordão umbilical dos portistas com o Presidente dos Presidentes do FC Porto. Nesse campo, a minha maior responsabilidade é continuar a elevar e honrar o bom nome de Jorge Nuno Pinto da Costa.”
Memórias do Presidente dos Presidentes
“Tenho de voltar a 2010/11, comigo enquanto treinador principal. Foi uma época histórica em que tudo correu tão bem e em que a nossa relação foi perfeita, mas há vários momentos da minha história no FC Porto nos quais me cruzo com Jorge Nuno Pinto da Costa, desde logo enquanto “Robsonzinho” e estatístico de Bobby Robson, fase em que era apelidado dessa forma. Era assim que ele me tratava com carinho. São boas e eternas memórias. A mais marcante terá sido a primeira chamada que tive com ele, que basicamente confirmava uma intenção de que eu fosse treinador do FC Porto na época 2010/11. Acho que essa tem uma profundidade, porque é o sentido da honra da palavra, o sentido do expoente máximo representativo do FC Porto, não só institucional enquanto presidente, mas também a figura de Jorge Nuno Pinto da Costa, que confirma a um jovem treinador que será o próximo treinador do FC Porto. São estes momentos altamente emocionais que me vinculam ao presidente.”
Equipas femininas para as modalidades?
“É difícil, porque temos a nossa sustentabilidade económica controlada, mas ainda numa situação urgente, principalmente em relação aos fluxos de caixa. Ter mais equipas femininas implica também custos maiores, que têm de ser controlados. É uma ambição do FC Porto. Do programa da campanha eleitoral de 2024 faltam cumprir duas promessas. Uma é a confirmação da criação da Fundação FC Porto, que aguardamos que esteja totalmente resolvida a nível jurídico, porque é um prazo que temos de respeitar para depois podermos começar a operar. Com a Fundação FC Porto vem o atletismo amador e o regresso do FC Porto ao atletismo em várias vertentes. Em cada sócio, um atleta do FC Porto. Sempre foi um objetivo meu que o FC Porto, através de diferentes bolsas, patrocinasse o atletismo destes sócios em diferentes provas, sejam elas quais forem, num espírito amador. Além desse regresso, também o potencial regresso do voleibol masculino, que, até à data, penso que ainda é uma das modalidades mais vencedoras da história do FC Porto. O futsal é o próximo passo, cumprido e lançado na Terceira Divisão, com potencial para crescer. É pedida aos sócios alguma tolerância, porque o nível a que estão os nossos rivais é altíssimo, competem pelas competições europeias, pelo que há uma margem enorme até chegarmos ao topo, até podermos ambicionar a conquistar o título da Primeira Divisão. Portanto, isto é para ser gradual e é para ser também um projeto formativo. O lançamento de mais modalidades femininas é um outro desafio que tem de estar intimamente relacionado com o lançamento do pavilhão na Escola Ramalho Ortigão. Há um direito de superfície que foi dado ao FC Porto para os próximos 75 anos, para construir um novo pavilhão. Como há problemas de infraestrutura, as modalidades andam com a casa às costas e a formação também anda com a casa às costas, portanto, para pensarmos em modalidades femininas, temos de ter uma nova casa. A nova casa tem um sítio, que é o Pavilhão Ramalho Ortigão, mas é preciso arranjar os meios de financiamento para o construir e depois, a longo prazo, esperemos no segundo mandato, lançar esse desafio de crescer na diversidade, que é uma obrigação e uma responsabilidade social do FC Porto também.”
Um Clube dos sócios
“Formal e diretamente não houve qualquer abordagem de investidores. Se um dia abrirmos a porta a investimento estrangeiro no FC Porto, seja em que moldes for, será o princípio do fim do FC Porto enquanto clube de associados. O nosso objetivo é que o FC Porto continue a ser um clube de associados. É assim que deve ser. As dificuldades económicas e financeiras são evidentes em todos os clubes portugueses e é por isso que há que reformatar o conceito de receitas para que sejamos sustentáveis enquanto clube de associados. Sermos um clube de associados é uma vantagem competitiva neste momento, no panorama do futebol europeu, porque não estamos sujeitos às extravagâncias de diferentes proprietários que vão dominando as diferentes sociedades ou de fundos que gerem os diferentes clubes europeus. Nesta disrupção, vão-se destruindo culturas, valores e princípios. Portanto, a entrada de capital estrangeiro no FC Porto e a presença de um acionista maioritário estão fora de questão. Seria o fim do associativismo. Minoritário, para mim, é o princípio do fim e acho que é algo que devemos combater. Chegar a esse ponto seria já um caso evidente de falência financeira técnica e penso que é um passo que temos de evitar em absoluto. Portanto, se isso acontecesse comigo, seria uma falha grave minha enquanto presidente desta instituição.”
A Premier League é um mundo à parte
“São diferentes cenários. Em primeiro lugar, regressando ao aspeto da vantagem competitiva, acho que é evidente. Nós não estamos sujeitos a estas disrupções, o FC Porto é um Clube de princípios e valores muito claros e de uma exigência interna que é clara, que está na sua base e na sua génese e que são os associados. Para mim, usar isto é uma vantagem competitiva dentro do panorama europeu, sendo que, na parte financeira, os clubes portugueses sofrem quando competem com os outros. Depois, as novas formas de receita, desde logo aquela que conseguimos com a Dragon Notes, permitem criar sustentabilidade aos clubes associados desta forma. Nós fomos os pioneiros, o Sporting seguiu-se agora com o seu “Lion Notes” ou o que lhe quiser chamar, e o Benfica também poderá lançar-se numa nova emissão de dívida relacionada com as receitas que o seu estádio gera para levantar capital e, no fundo, se reformatar e reformular economicamente. Há novas formas de criar receita, mas esgotadas essas, para onde caminhamos? E aqui entramos na discussão das dificuldades que os clubes europeus têm para competir com a Premier League. A Premier League é o animal que distingue o futebol europeu, tornou-se de tal forma poderoso que o FC Porto agora compete com clubes do Championship por jogadores, pois os da Premier League já estão noutro patamar. Como é que os clubes europeus se unem para criarem novas fontes de receita que tornem possível competir com a Premier League? Até que ponto e quando teremos competições intrafronteiriças que permitem aos clubes europeus gerar mais receitas?”
As principais fontes de receita
“São as receitas europeias, direitos audiovisuais, entradas na Liga dos Campeões e trabalho no mercado, que felizmente no acordo FIFA/FIFPro relativamente ao caso Diarra nos dá absoluta tranquilidade quanto ao futuro, porque se esse mesmo acordo fosse ameaçado e os contratos de trabalho fossem vistos de outra forma, os clubes portugueses não teriam sustentabilidade e teriam de refazer todo o seu investimento.”
O naming do Estádio do Dragão
“A discussão dos namings é recorrente. Se recuarmos algumas décadas, quando havia a intenção de afirmação publicitária no plano nacional, havia determinadas empresas que patrocinavam os três clubes. Se partirmos de um pressuposto baixo que o naming do estádio de um dos três grandes vale pelo menos três milhões de euros, qualquer empresa multinacional que se queira implementar no território nacional patrocinaria os três maiores clubes portugueses, o que implicaria imediatamente o investimento de nove milhões de euros em publicidade no território português. Isto não é viável para as grandes companhias. Depois, as companhias nacionais não se querem vincular especificamente a um clube com medo de represálias dos seus clientes que sejam adeptos dos outros clubes. É um desafio e é preciso uma lógica muito coordenada para os investidores que queiram este nível de exposição mediática. O FC Porto está à procura, tal como a Legends está à procura, tal como diz o acordo que foi feito antes da nossa chegada. O valor de três milhões de euros é uma referência de mercado e depois tudo depende da quantidade de ativos que se colocam no naming do estádio, mais a própria base de dados, os adeptos do FC Porto. Não queremos que chegue ao ponto de tratarmos os nossos associados como clientes que têm de servir os interesses de outras companhias. É tudo muito sensível. A verdade é que estamos no mercado e acreditamos que a exposição mediática de um naming é forte e reformula o conceito dos estádios. Acho que o nome Dragão é unânime para todos e teria de ser mantido, mas o Wanda Metropolitano é agora Ryiad Air Metropolitano e há mudanças que se fazem, mas vai ser sempre Metropolitano ou Calderón para os adeptos do Atlético Madrid. Há algumas especificidades e o FC Porto está no mercado para tentar encontrar um naming.”
Os multiclubes ou multipropriedades
“São sinais preocupantes dos tempos. Há sinais que requerem determinadas adaptações e também nos fomos adaptando. Estive presente na final da Copa América do ano passado, entre a Argentina e a Colômbia, e o intervalo foram 30 minutos com um espetáculo da Shakira. As instituições internacionais tentam reinventar modelos económicos. São instituições sem fins lucrativos, mas que obrigam a determinadas exposições dos patrocinadores, muitas vezes para oferecem um produto melhor aos adeptos, embora uns gostem e outros não. São novas realidades e as mais preocupantes são as multipropriedades, que em sede do Comité de Competições da UEFA já demonstrámos cada vez mais resistência e preocupação. Na realidade portuguesa, estas multipropriedades são apenas um veículo de investimento e aqueles clubes menos associativos estão a mudar de dono com frequência e com grandes dificuldades económicas. Vai sempre ao encontro do interesse do investidor e não dos sócios e adeptos, mas é uma realidade transversal ao futebol europeu. Os clubes europeus estão preocupados e a tentar que não haja uma proliferação destes multiclubes europeus. Também me parece evidente que esta ideia está a falir porque no início foram pensados como projetos de envolvimento em cadeia de jogadores. Essa ideia está a falir, mas há muitas ameaças às realidades da forma como nós, pessoas mais conservadoras, pensamos no fenómeno futebol. Saberemos adaptarmos a essas diferentes perspetivas.”
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