Parte 1 da entrevista a André Villas-Boas: renovação do Dragão, revolução no plantel, a abordagem ao mercado e Francesco Farioli
André Villas-Boas concedeu uma entrevista ao Jornal de Notícias, O Jogo e TSF para “partilhar as ideias do futuro do FC Porto”. Na primeira parte dessa conversa, o líder máximo do Clube falou sobre “os recordes históricos” que têm sido atingidos depois de “uma revolução necessária” e de “uma injeção clara de talento” num “mercado histórico e sem paralelo”.
Apesar de “ter consciência de que a realidade económica do FC Porto não está totalmente resolvida”, o presidente pretende “manter os melhores talentos na equipa principal e reforçá-la em pontos estratégicos identificados pelo treinador”: “Não irá ser um mercado de 100 milhões de euros, claro está, porque estas bases permitem-nos olhar para o mercado de uma forma diferente e também muito mais ponderada”.
André Villas-Boas sabe que “para ser competitivo, o FC Porto tem de tentar manter a sua base”, ainda assim assume ser “preciso criar fluxos de caixa para manter o Clube sustentável durante a época” e prevê que “mercado se agitará nas semanas finais de agosto”. Francesco Farioli é descrito como "um grande e forte gestor de homens e de recursos humanos" e como o timoneiro de "um FC Porto atrativo e pressionante, que defende e honra os pergaminhos do clube".
A lotação do Dragão
“Em primeiro lugar, quero agradecer a vossa presença. Para mim é um privilégio enorme. Há algo que distingue o Jornal de Notícias, O Jogo e TSF, pela sua ligação umbilical à cidade do Porto, ao Norte e ao FC Porto. É um prazer enorme receber-vos, dar-vos esta entrevista e partilhar as ideias do futuro do FC Porto. O estádio teve uma ocupação de 91% nesta época, algo que muito nos orgulhou e foi um registo absolutamente histórico, tal como tantos recordes históricos que estamos a conseguir, desde o crescimento dos Lugares Anuais, do número de sócios, do ticketing e das receitas. Aumentar a lotação do estádio é algo que, neste momento, não está em equação porque, em primeiro lugar, há uma problemática vinculada à parte arquitetónica e depois porque 91% não são anos a fio de 100% de ocupação. É um bom primeiro teste de desenvolvimento e de crescimento da massa associativa, de uma nova relação com o seu estádio e com a sua casa, mas ainda penso que não é para agora. Aumentar a lotação do Estádio do Dragão, em primeiro lugar, pode não ser viável; em segundo lugar, acho que ainda não se justifica; e, em terceiro lugar, acho que primeiro é preciso melhorar os serviços que o Estádio do Dragão presta a quem vive esta casa, os sócios e adeptos do FC Porto. É isso que estamos a fazer agora, com uma renovação revolucionária que permitirá oferecer melhores condições aos adeptos do FC Porto.”
As obras de renovação do estádio
“É um projeto de várias fases que começou no início da temporada passada, que tem agora uma segunda fase com a criação de um sem-número de produtos de hospitalidade, de restauração e de serviços e que terminará no próximo ano, com a parte que está relacionada com as acessibilidades do Estádio do Dragão - entradas e saídas mais rápidas para as pessoas que se deslocam diariamente, ou semanalmente, ao Estádio do Dragão.”
As melhorias para os portistas
“São sobretudo a nível de restauração e de serviços que os adeptos do FC Porto podem esperar usufruir a nível de catering, de escolhas, de melhor experiência no Estádio do Dragão.”
Uma revolução desportiva
“Foi, sobretudo, uma revolução necessária, uma injeção clara de talento e uma aposta que o FC Porto precisava de fazer. O nosso primeiro desafio foi a realidade económica do FC Porto na época 2024/25, que nos permitiu um encaixe financeiro considerável, mas que nos obrigava, de novo, a refazer a equipa para a época 2025/26 e a reinvestir no talento. Portanto, foi um mercado histórico, sem paralelo na história do FC Porto, mas absolutamente necessário para quem queria ser candidato ao título. Acho que, se tivéssemos chegado ao fim da época 2025/26 e o FC Porto não tivesse sido Campeão Nacional, seria porque não tinha feito bem o trabalho a nível de renovação e investimento no plantel. Portanto, fizemos uma revolução profunda, absolutamente necessária, que nos dá agora bases para atacar o mercado de outra forma. É importante ter consciência de que a realidade económica do FC Porto não está totalmente resolvida. É claro que a dívida foi prolongada a longo prazo, digamos assim. Temos responsabilidades financeiras enormes, das quais não podemos escapar. Neste momento, trabalhamos a partir de outra base, uma base que não tínhamos no ano passado. Uma base boa, por isso queremos manter os melhores talentos na equipa principal e reforçá-la em pontos estratégicos identificados pelo treinador. Não irá ser um mercado de 100 milhões de euros, claro está, porque estas bases permitem-nos olhar para o mercado de uma forma diferente e também muito mais ponderada.”
A importância de manter a base da equipa
“Estamos sempre sujeitos aos interesses do mercado, que neste momento se comporta de uma forma muito específica, também por causa do Mundial. Para ser competitivo, o FC Porto tem de tentar manter a sua base. É claro que os clubes portugueses têm necessidade imediata de tesouraria e de caixa, porque têm de fazer face aos compromissos e ter fluxos de caixa suficientes que façam face a esses compromissos, desde logo os salários e pagamentos a clubes, pagamentos de transferências feitas anteriormente, e é por isso que somos sempre obrigados a mexer-nos no mercado. Nesta fase não temos nada em concreto pelos nossos jogadores, o que nos dá uma base boa e proteção para ela, mas temos consciência de que é preciso criar esses fluxos de caixa para nos mantermos sustentáveis durante a época, do ponto de vista das nossas obrigações.”
A abordagem ao mercado
“Temos muitos alvos, muitos deles referenciados, muitos já circulam. O mercado de junho e julho é o mais caro, é a altura em que a maior parte dos clubes protege os seus ativos e pede quantias mais avultadas. Este é um mercado que normalmente se promove mais tarde, por conta das entradas de novos treinadores, por conta dos inícios das pré-épocas, por conta também dos inícios das escolhas desses treinadores e por conta das necessidades de fluxos de caixa de outros clubes. Portanto, diria que é um mercado que se agitará em agosto, nas semanas finais de agosto, altura em que os clubes têm necessidades imediatas mais prementes e então ativam-se no mercado de outra forma. Às vezes, isto é limitativo dos ideais de um treinador que normalmente quer começar a pré-época com um plantel totalmente disponível e já totalmente feito. No entanto, nós também não podemos deixar de pensar na forma como atuámos no início da época 2025/26 e ter em consideração que alguns jogadores do FC Porto também chegaram mais tarde, desde logo o Jakub Kiwior, que chegou no último dia de transferências.”
A frente de ataque
“Acho que o que marcou a época 2025/26 foi a lesão dos nossos dois pontas de lança mais distintos. Um deles é a maior transferência de sempre feita por um clube português, que é o Samu. O outro, Luuk de Jong, foi uma das transferências-surpresa de uma referência do futebol europeu. Portanto, essas lesões limitaram o FC Porto, obrigaram-nos a ir a mercado em antecipação com a chegada do Moffi. Neste momento, temos projetado que o Samu vai estar em plenas capacidades físicas e desportivas em inícios de novembro, meados de novembro, e até lá há uma série de responsabilidades de calendário nacional e calendário europeu, para as quais o FC Porto, neste momento, tem apenas duas opções: o André Silva e o Deniz Gül.”
Robert Lewandowski
“É aí que aparece o Lewandowski, fabricado pelos sonhos dos adeptos, a partir do pressuposto que, por termos três polacos, seria suficiente para convencer um dos melhores jogadores do mundo e um dos jogadores mais caros a níveis salariais do mundo que, tanto quanto sei, está a assinar pelo Chicago Fire. Sempre esteve fora de equação, mas é sempre bom sonhar com essas grandes chegadas. O que não pode acontecer são delírios que impeçam a sustentabilidade financeira do FC Porto.”
Francesco Farioli
"Fora a parte que está relacionada com tudo o que é o seu âmbito técnico e específico e a liderança, a motivação dos jogadores e o trabalho diário, está o homem que se relacionou com a estrutura do FC Porto como ninguém. Desde logo com o Tiago Madureira, com o Henrique Monteiro, com o scouting, com as diferentes estruturas de apoio, com a performance, com a área médica, com a nutrição. Um grande e forte gestor de homens e de recursos humanos e, evidentemente, de jogadores, que nesta época também se transcenderam e que assimilaram as ideias do treinador como ninguém. Que o souberam respeitar e que souberam implementar em campo as suas ideias, traduzindo-se num FC Porto atrativo e pressionante, que defende e honra os pergaminhos do clube."
La Famiglia Portista
"É um conceito que ele próprio criou e que abraçou. E que sem dúvida defendeu durante a época. E isto também é muito Porto. É a capacidade que estes jogadores e treinador tiveram para perceber que aqui é a nossa realidade e adaptar-se a ela."
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