André Villas-Boas em entrevista ao podcast “Primeiro Toque”
No rescaldo de uma época em que “o propósito maior finalmente foi realizado”, já que “qualquer presidente do FC Porto tem que ter a obrigação de ser Campeão Nacional”, André Villas-Boas concedeu uma entrevista ao podcast “Primeiro Toque” em que vincou o desejo de “criar bases suficientes que sustentem o FC Porto no primeiro lugar durante muitos anos” e de manter os valores da instituição intactos: “A resistência, a resiliência, o lutar contra tudo e contra todos, um Clube muito fechado em si próprio, aspetos que são transversais a pessoas e transversais à organização. Isto, para mim, é uma vantagem competitiva”.
Convicto de que o Clube “tem um grande talento à disposição” e de que não o está disposto a vender “a qualquer preço”, o presidente recordou como se desenrolaram as “diferentes batalhas” para contratar Samu, Victor Froholdt ou Jakub Kiwior antes de constatar que “o FC Porto é o clube com mais títulos no futebol nacional, é o clube português com mais títulos no futebol internacional, tem uma história sem paralelo e sem precedentes, e há muitas pessoas que veem uma fotografia do espólio de troféus internacionais e querem vir para o FC Porto”.
O processo de contratação de jogadores
“Os processos de compra normalmente começam por listas de scouting, portanto, uma estrutura de scouting que funciona para servir o Clube, como deve ser, e que tem sido altamente evoluído com novas tecnologias e novas ferramentas, como o manuseamento e gestão de dados, a introdução da inteligência artificial e a filtração de dados. Dessas estruturas de scouting saem listas dos melhores por posição e depois, em sintonia com o treinador ou por decisão da própria estrutura, tomam-se decisões sobre os jogadores que achamos interessantes para contratar. A partir daí dão-se os primeiros contactos, normalmente com os agentes, porque os clubes não podem entrar diretamente em contacto com os jogadores, sabem-se mais ou menos as condições, o interesse da outra pessoa em juntar-se ao clube e as condições económicas para o jogador e para o agente, que também faz o seu trabalho. Alguns são mais caros do que outros, mas há algo de que nos orgulhamos, que foi ter trazido para níveis aceitáveis o comissionamento nas negociações em que o FC Porto estava envolvido. A partir daí, quando há um corpo comum de interesses, iniciam-se as negociações com o clube, que podem acontecer de forma direta ou através do agente, e depois é um campo de batalha, de saber se o clube quer vender, por quanto é que quer vender, se quer guardar mais-valias futuras… há muita gente que percebe que o FC Porto é um clube vendedor e um veículo de criação de valor, e a partir daí pode haver um desejo de guardar mais-valias, no caso de uma futura transferência. Chegando a acordo, é basicamente isso, e é o processo inverso também na venda.”
A marca FC Porto
“O FC Porto tem muito talento à disposição e quer manter-se conhecido como um grande negociador e um grande vendedor. Sabemos que temos um grande talento à disposição, não o vendemos a qualquer preço. Queremos ter a marca FC Porto, o talento que sai do FC Porto tem que vencer nos melhores campeonatos da Europa. É uma marca que queremos guardar, não queremos sujar essa marca e estar a vender só por vender e aldrabar ou enganar o clube para o qual vão os nossos talentos. Essa criação de marca é importante, é algo de que nos orgulhamos, por isso somos um clube difícil. Vendemos bom talento, mas somos um clube difícil a negociar.”
Trabalhar em antecipação no mercado
“Há grandes talentos que identificamos e que desejamos muito ter, mas que depois não querem vir ou têm outros clubes e todo o trabalho que fizemos vai por água abaixo. Por isso é que é muito importante trabalhar em antecipação. Por isso é que esta época 2025/26 foi um sucesso ao nível de contratações, porque perdemos horas e horas em reuniões, em criar um FC Porto ainda mais atrativo para muitos talentos. Só assim conseguimos reunir nesta equipa talentos extraordinários. Foi fruto de muitas reuniões durante meses, muitos convencimentos, muitas táticas, muitas reuniões secretas também. Dá prazer, mas retira muito de uma pessoa.”
A contratação de Samu
“Esta história é muito curiosa. Deu-se a falha da transferência para o Chelsea FC, com o Chelsea FC a alegar lesões que o jogador não tinha, ou seja, que no nosso departamento médico não foram vistas em exames médicos ou foram desvalorizadas em exames médicos. Quando cai a transferência para o Chelsea FC, o jogador ficou no mercado e, ao ter ficado no mercado, em apenas 24 horas sentámo-nos rapidamente com o jogador, em Madrid, na sede do Atlético de Madrid, e fechámos o acordo sem ninguém saber. Foi algo que nos orgulhou, conseguir atrair para o FC Porto um dos maiores talentos do futebol mundial. É alguém em quem depositamos grandes esperanças para o futuro e que neste momento não desagradou a ninguém. É um jogador cheio de paixão e de emoção, além de todo o talento que tem, que é único e não tem paralelo.”
A operação “Victor Froholdt”
“Não se chegou a concretizar a transferência para a Bundesliga, mas a verdade é que estava apalavrada. Foi apalavrada depois de o FC Porto já ter estado, em Copenhaga, com a família e o agente. Depois, fruto da negociação que se deu entre esse clube da Bundesliga e o FC Copenhaga, não houve acordo e o FC Porto tinha uma janela muito curta de tempo para poder atuar. Atuou e trouxe o jogador para aqui. Normalmente este jogador não devia estar aqui, devia estar noutro campeonato.”
A contratação de Jakub Kiwior
“A contratação do Jakub Kiwior também foi muito especial, porque era um jogador altamente talentoso da Premier League, com muito interesse de muitos clubes, entre os quais grandes clubes europeus, e foi uma pessoa que adorou o projeto do FC Porto. Foi mais uma transferência que só conseguimos concluir no fecho do mercado, porque estava associada à ida de um jogador para o Arsenal FC, que libertava, em consequência, o Kiwior para o FC Porto. Todas estas contratações contam diferentes histórias e diferentes batalhas que nos orgulham. Uma coisa é certa e não te posso negar: uma foto como esta [do espólio de títulos internacionais] atrai muita gente. O FC Porto é o clube com mais títulos no futebol nacional, é o clube português com mais títulos no futebol internacional, tem uma história sem paralelo e sem precedentes, e há muitas pessoas que veem uma fotografia destes troféus e querem vir para o FC Porto.”
Uma grande vitória fora de campo
“O FC Porto, quando fui eleito a 27 de abril de 2024, tinha responsabilidades de 16 milhões de euros para pagar num mês e não tinha qualquer possibilidade de fazer face às mesmas. Nesse momento fomos salvos por sócios do Clube, que permitiram a injeção de capital imediata para fazermos face a essas obrigações, que eram sobretudo pagamentos a fornecedores e a clubes, bem como salários a funcionários e a jogadores de diferentes modalidades em atraso. Se não fosse a generosidade dessas pessoas, que hoje as levamos no coração e que nos têm ajudado, teríamos entrado numa situação difícil. É claro que há muitas pessoas como nós, que se relacionam com amor total ao FC Porto e que não hesitaram em depositar dinheiro que é seu nas contas do Clube. O FC Porto conseguiu devolver esse dinheiro até dezembro de 2024, fruto também da conclusão do projeto Porto StadCo, que nos permitiu levantar 115 milhões de euros em obrigações no mercado americano.A partir daí, deu-se também, por continuidade desse projeto, a venda de parte da Porto StadCo à Itaka, uma construção de um negócio que já vinha da anterior administração, o que nos elevou o total de capital para cerca de 180 milhões de euros, mais ou menos. Depois, chegados a janeiro de 2025, a venda do Nico González e do Wenderson Galeno, que nos permitiram ter uma injeção de capital de 110 milhões de euros.Todas estas operações foram absolutamente fundamentais na sustentabilidade do Clube, pelo menos a curto prazo, para a resolução de imensos problemas e para tornar o FC Porto um clube credível na banca, com os seus fornecedores, com os seus funcionários e com os seus jogadores. Isso permitiu-nos depois investir no plantel de 2025/26, o que faz com que o FC Porto, neste momento, só por pequena diferença não seja atualmente o plantel mais valioso do futebol português, à distância de dez milhões de euros. No fundo, essa foi a grande vitória da nossa equipa.”
As vantagens do associativismo
“O campo do associativismo ou dos clubes de sócios, na minha ótica, é uma vantagem competitiva, porque temos culturas bem enraizadas, valores de clubes, princípios e, apesar de as pessoas mudarem nas presidências dos clubes, evidentemente eleitas pelos seus membros, temos sempre visões globais que são partilhadas pela história que os clubes vão construindo ao longo do tempo. Eu sou o presidente do FC Porto agora, eleito após 42 anos de mandato de Jorge Nuno Pinto da Costa. O próximo presidente do FC Porto terá a natureza vencedora da história do FC Porto como guia orientador para o futuro do Clube. Tem que ser um futuro vencedor, ligado a troféus, com determinados princípios que são evidentes na história do FC Porto. A resistência, a resiliência, o lutar contra tudo e contra todos, um clube muito fechado em si próprio, aspectos que são transversais a pessoas e transversais à organização. Isto, para mim, é uma vantagem competitiva e explico-te porquê. Os clubes ingleses mudam radicalmente de propriedade em ciclos muito curtos no tempo e isso faz com que as culturas sejam mudadas ao longo do tempo, sejam cada vez mais disruptivas, e as pessoas que gerem estas organizações sejam completamente diferentes a nível de valores, de ambições, e apenas olhem para os seus clubes como um veículo financeiro e um veículo de gerar valor dentro das suas fortunas, basicamente. O panorama do futebol português já está vendido totalmente, sobram cada vez menos clubes que não são propriedades de fundos e de outros proprietários, ou que não são propriedades de alguém. FC Porto, Benfica, Sporting, FC Barcelona, Real Madrid, Athletic Bilbao, Real Sociedad. São poucos os que restam, tudo o resto está a ser invadido pelas propriedades e as propriedades têm interesse em criar valor para vender mais caro. Isto traz grandes disrupções, é por isso que acho que o clube de associados é uma vantagem competitiva, porque tem cultura, tem princípios, tem valores, tem uma linha correta no tempo que tem de atravessar, tem de entregar títulos, a exigência vem de fora e os sócios têm uma influência direta sobre quem lidera.Não temos os fundos financeiros e económicos que os outros têm, portanto temos de fazer valer as nossas competências e temos de fazer valer o princípio da estabilidade das organizações, que é o que os outros não têm. É assim que queremos operar: tornar a nossa organização viável nestes mercados disruptivos, ser mais espertos do que os outros, chegar mais cedo ao talento, gerar valor com a nossa cultura e agarrarmo-nos a ela, porque os outros não têm isto.”
A relação com Francesco Farioli
“Em 2025/26, o FC Porto decidiu eliminar a figura da direção desportiva por ter uma pessoa a ocupar esse espaço, que foi o treinador. Há uma relação direta entre treinador e presidente e uma linha muito mais fluída em que as decisões são tomadas por estas duas pessoas, em concordância com a gestão executiva do futebol, a comissão executiva e a parte jurídico-financeira, mas há uma linha direta muito mais esclarecida.O facto de eu ter sido treinador permite haver uma linha direta e uma vantagem competitiva que provavelmente os outros não tiveram ou não têm.”
A necessidade de haver maior regulação no licenciamento
“A lei do licenciamento tem que ser muito mais agressiva. O FC Porto não pode estar obrigado sob as leis da UEFA a fazer face às suas obrigações para com clubes aos quais deve capital e dinheiro por causa de contratações de jogadores e haver clubes que submetem PERES e que dissolvem essas dívidas como se não fossem nada através dos PERES e continuam a estar na Primeira Liga, enquanto há clubes que são honrados e fazem face às suas obrigações, cumprem os seus salários e cumprem com os clubes aos quais compram os jogadores.”
Limitação de mandatos na presidência do FC Porto
“Vai ao encontro das melhores práticas. Isto vai ao encontro de uma potencial mudança estatutária do FC Porto. Para qualquer mudança estatutária, a mesma tem de ser validada em sede de Assembleia Geral. Iniciámos agora uma consulta com a Mesa da Assembleia Geral e começámos a debater se há necessidade de melhorar os estatutos, porque há potencial para melhorias a nível estatutário, desde logo nas categorias de sócio, haver mais categorias, facilidades de pagamento e dar algum conforto aos sócios na introdução estatutária de aspetos que estão relacionados com a vida associativa. No campo da gestão, não há limitação de mandatos. Ao não haver anteriormente, permitiu-nos ter uma história sem paralelo e sem igual durante 42 anos, o que não quer dizer que não devemos trazer isto para sede de Assembleia Geral para ser discutido. Acho que os três mandatos seguem as melhores práticas europeias a nível político, não no que se faz a nível de associações, porque os CEO's mantêm-se no tempo enquanto gestores, mas no campo associativo acho que pode fazer sentido seguir as melhores práticas. É uma sugestão que potencialmente poderá vir junto de uma mudança estatutária a ser debatida em sede de Assembleia Geral. É seguramente um dos pontos que quero levar aos sócios. Serão eles a decidir. A continuidade de um presidente ou da minha carreira como presidente está dependente dos sócios e de mim, enquanto apresentar a minha candidatura. Mas acho que é algo que pode seguir as melhores práticas.”
O título e a ambição futura
“Sobretudo alívio, viver a felicidade das pessoas, esse é o meu maior propósito enquanto presidente do FC Porto, é tornar os sócios felizes. Para o fazer, tenho de entregar títulos aos sócios do FC Porto, fazer com que a organização funcione de forma a que no seu expoente máximo representativo, que é a equipa principal de futebol, seja capaz de entregar sucesso, vitórias e títulos, porque são os mesmos que são a construção desta organização, do nosso palmarés, do nosso historial e do nosso orgulho. Estava na tribuna presidencial, rodeado do presidente da Assembleia Geral da República e do Primeiro-Ministro, entre dois grandes portistas, que foram as duas primeiras pessoas que cumprimentei. Esse momento foi, sobretudo, a confirmação da felicidade e do orgulho azul e branco e da época 2025/26 ter chegado a bom porto. Portanto, foi um propósito maior que finalmente se realizou, é uma obrigação, qualquer presidente do FC Porto tem que ter a obrigação de ser Campeão Nacional. Já falhamos numa época, entregámos noutra, e agora queremos ocupar um lugar que pertence à história do FC Porto. Não queremos passar outra vez quatro anos sem ganhar títulos, queremos criar bases suficientes que nos sustentem no primeiro lugar durante muitos anos.”
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