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Segunda parte da entrevista de Francesco Farioli à Sport TV

Horas depois da vitória nos Açores (1-0) que permitiu completar a melhor primeira volta da história do campeonato, Francesco Farioli concedeu uma grande entrevista à Sport TV durante a qual abordou vários temas do passado, presente e futuro. Na segunda parte dessa extensa conversa, o timoneiro do FC Porto falou sobre a importância da equipa técnica, a relação com André Villas-Boas, as conversas que mantém com o presidente, a força das bancadas, os homólogos lisboetas, o papel do treinador no futebol atual e os principais protagonistas de 2025/26, um a um.

A importância do staff
“No meu primeiro clube, quando comecei a negociar, eles propuseram um valor para mim e outro para o meu adjunto e eu optei por não receber um euro, dividindo essa quantia por cinco ou seis pessoas que queria ter a trabalhar comigo. Isto diz muito sobre o sobre o impacto do staff e acho que o trabalho da minha equipa técnica tem sido surreal, o impacto que têm é enorme em termos de desenvolvimento individual e coletivo. Estão perto o suficiente dos jogadores para perceberem o seu estado de espírito. Para conseguirmos ter uma temporada bem-sucedida é preciso ter atenção a todos os detalhes e isso nunca pode ser o trabalho de uma só pessoa, é sempre o trabalho de uma equipa, todos com a sua tarefa e com um determinado impacto no trabalho diário. Falei da equipa técnica, mas também posso falar do departamento de performance, do departamento médico, do gabinete de apoio aos jogadores e de todas as pessoas que trabalham neste Clube a começar pelo Jardel, o nosso roupeiro tão carismático e apaixonado pelo FC Porto, até ao presidente, que é nossa referência e a pessoa que está a liderar o Clube com uma postura incrível, uma atitude e um compromisso incrível para que as coisas resultem.”

A relação com André Villas-Boas
“É uma situação muito estranha, porque ele é o dirigente que eu conheço que mais percebe de futebol. A sua carreira como treinador fala por si própria e, para ser sincero, ele é a pessoa com quem eu menos falei menos sobre táticas, porque antes da primeira reunião eu tinha preparado algumas coisas para lhe mostrar, mas ele já sabia tudo e limitámo-nos a falar sobre outro tipo de coisas. Só quando cheguei ao Porto é que precisei de abrir o computador para lhe mostrar algo. Isso diz muito sobre sua preparação e sobre o respeito que ele tem pelo trabalho, que tem feito muito bem. A nossa comunicação é muito aberta, muito direta, há coisas que vemos de ângulos diferentes e isso enriquece muito as nossas conversas. É um presidente muito presente, vem ao Olival uma ou duas vezes por semana, está sempre connosco na véspera dos jogos e transmite-nos uma energia importante. Não poderia pedir um presidente melhor. Mais do que a função e o que representa, eu acho que nós temos uma verdadeira ligação humana. Trocamos muitas mensagens sobre futebol a altas horas da noite e, por vezes, às seis da manhã, quando acordo, já tenho uma mensagem dele a falar sobre um jogador, sobre uma situação, ou sobre como podemos fazer as coisas melhor. Vim para cá com o rótulo de treinador muito trabalhador, mas aqui há pessoas que são tão ou mais trabalhadoras do que eu. Isso é inacreditável. Falo do presidente, do Tiago (Madureira), do Henrique (Monteiro) e das pessoas próximas deles. Já todos percebemos quem somos, como somos, para onde queremos ir e não há melhor forma de liderar do que liderar pelo exemplo.”

As conversas com o presidente
“Falamos sobre a performance da equipa, sobre os jogos, sobre as sensações com que ficámos, sobre o momento em que estamos e sobre as coisas que é preciso melhorar. Sou uma pessoa que gosta de ouvir e de receber feedback. Vou dar um exemplo: num dos nossos primeiros encontros, o presidente disse que o Samu não devia defender ao primeiro poste nos cantos em que fazemos marcação à zona. Fui logo ver algumas imagens, segui o conselho e, como já devem ter reparado, o Samu agora nunca está lá. Quando chegas a um sítio novo, acreditas nas pessoas e no que elas te dizem e isso ajuda a acelerar o processo de adaptação. Claro que é importante chegar com a mente fresca, para fazermos a nossa própria avaliação, mas também gosto de receber dicas, sou uma pessoa que gosta de ouvir, de criar e de trabalhar num ambiente de cooperação. Numa equipa técnica tão grande todos têm de acrescentar algo respeitando o seu papel, mas eu acredito que todos podem contribuir para acrescentar a peça certa a um grande puzzle.”

A preparação física do plantel
“A preparação física é um dos principais elementos do trabalho que estamos a desenvolver, desde o perfil dos jogadores que temos de procurar, no desenvolvimento dos atletas e não nego que sou paranóico com o lado físico do jogo e com a trajetória para onde o futebol está a caminhar. Não vamos descobrir nada, limitamo-nos a analisar as novas tendências e, a partir daí, tomamos certas decisões. Até agora corremos mais do que o adversário em todos os jogos, ultrapassámo-los em três, quatro, cinco e até oito ou nove quilómetros, o que é um número enorme e é quase como ter um jogador a mais. Toda a gente se ri com a quantidade de quilómetros que o Victor (Froholdt) corre e obviamente que ele tem um rendimento incrível, mas a realidade é que esses números e essa energia é fruto do trabalho de todos. Os nossos centrais chegam a correr mais de 11 quilómetros para tentar manter a equipa coesa e adiantada no campo, os avançados sobem muito para pressionar e trabalham sem bola no momento de recuar. A quantidade de sprints para desmontar as equipas que estão a defender em bloco baixo, para ultrapassar os adversários, para esticar a linha defensiva… às vezes nem sequer é para receber a bola, apenas para abrir novos espaços. Acredito que isso é fundamental, por isso acredito muito na capacidade física e em ter jogadores capazes de a entregar. Depois é preciso ter vontade de o fazer, o que também é importante. Para isso, acho que é preciso estar fresco nas pernas e na mente, por isso valorizo toda a gente dentro do plantel, tento rodar os jogadores, tê-los sempre prontos e envolvidos. Dessa forma, os treinos vão ser mais intensos e com dinâmicas diferentes e isso pode fazer uma diferença bastante relevante.”

A força do Mar Azul
“O apoio que temos recebido, como se viu no aeroporto quando partimos para os Açores, não significa que os adeptos estejam a celebrar algo. Eles querem dar-nos o impulso certo, transmitir-nos força e lembrar-nos do papel que todos temos aqui dentro. Eles querem transmitir-nos um grande desejo, uma grande vontade de vencer e nunca senti que estivessem a celebrar. Todos sabem para onde queremos ir, estamos todos na mesma página e este entusiasmo e esta adrenalina que se sente um pouco por toda a cidade é algo que deve ser trabalhado para continuar a crescer, porque é especial. Os nossos adeptos estão a fazer um excelente trabalho quando jogamos no Dragão e também quando jogamos fora, porque na maioria das vezes é como se jogássemos em casa.”

Os elogios de Mourinho
“Acredito que as palavras do José Mourinho são verdadeiras. Infelizmente os recordes a meio da época não nos dão qualquer título ou vantagem. O que temos feito é especial, não é motivo para celebrar. Não devemos ficar obcecados com isso, porque já faz parte do passado. Precisamos de olhar para o futuro e o futuro próximo é um mês de janeiro que será muito importante. A começar por um jogo da Taça, que será especial por várias razões, um clássico em nossa casa, um jogo que já está no ar. Vamos ter jogos importantes para o campeonato e não podemos facilitar. Mesmo tendo feito um percurso extraordinário, ainda está tudo em aberto, os rivais vão competir até o fim. Ainda temos dois jogos importantes para a Liga Europa e também temos a oportunidade e o desejo de nos qualificarmos no top-8, que seria algo muito importante para evitar acrescentar dois jogos do play-off a um calendário já muito preenchido. Há muito trabalho para fazer e não temos tempo para festejos. Amanhã vamos para o Algarve trabalhar no duro, recuperar a condição física e refrescar a mente. Vamos levar os jogadores e as famílias para reforçarmos a ligação entre todos. Quando eu vejo a família portista, a família portista são os adeptos, os jogadores e as pessoas que estão connosco todos os dias. As pessoas que nos esperam em casa quando voltamos do trabalho. Elas têm um papel importante na nossa vida e será ótimo tê-las por perto nos próximos dias.”

Rui Borges e José Mourinho
“São dois grandes treinadores. O Rui Borges é o atual campeão, o trabalho que tem feito no campeonato e na Liga dos Campeões é ótimo. O Mourinho é uma das principais referências para qualquer treinador de futebol. O número de títulos que ele ganhou, a forma como ele mudou o futebol, sua capacidade de reinventar o jogo, o método de treino e o impacto que ele teve na indústria... sempre foi e será um dos melhores treinadores do mundo.”

O papel do treinador
“Claro que já enfrentámos dificuldades e jogos difíceis, é normal, e não somos os únicos a encontrar dificuldades, porque jogamos num campeonato muito competitivo, com bons treinadores que estão muito bem preparados. As equipas que jogam na Europa não têm muito tempo para treinar, por isso é complicado manter a forma, a energia e preparar jogos de futebol. Às vezes temos de prepará-los só com recurso ao vídeo ou com um treino de 15 minutos na manhã do jogo. Os treinadores nos grandes clubes têm de ser muito eficientes, porque não têm tempo para passar a mensagem. Isso acontece durante os treinos e na sala de reuniões. Há uma história engraçada sobre as nossas reuniões e o Eustáquio até chegou a dizer que nós estávamos a gravar uma série para a Netflix. Um dos meus primeiros pedidos ao Clube foi ter uma sala de reuniões à altura das exigências, porque no início trabalhávamos no ginásio e agora temos um espaço confortável onde passamos muito tempo. É lá que construímos as nossas ideias e que as debatemos. São pequenos pormenores que se tornam fatores-chave a longo prazo. Queremos fazer as coisas bem, porque é muito importante entrar nos detalhes. Esta época mudou muita coisa, chegaram mais de dez jogadores novos e conseguirmos juntá-los tão rapidamente foi muito bom. Agora sentimos necessidade de melhorar, de fazer as coisas ainda melhor e de não baixar a fasquia. Temos de ter paciência para nos mantermos focados e continuarmos a fazer as coisas bem, mantendo o ritmo sempre elevado.”

Bednarek e Kiwior
“O nosso registo defensivo é impressionante, claro, mas eu não acho que seja bom só porque defendemos bem. Não é. Nós somos bons porque defendemos bem, sim, mas também porque atacamos de uma certa forma, de uma forma que requer paciência, qualidade técnica, muita coordenação entre os jogadores, o tempo, a compreensão, o nível de automatismo e sincronia em certos movimentos é a chave. Nessa forma de atacar também há bastante estabilidade defensiva. Nos jogos como o de ontem, quando se tornam mais abertos e temos de defender dentro da área, então claro que a atitude do Jan (Bednarek), do (Jakub) Kiwior e do Dominik (Prpic), bem como a do Thiago (Silva), vai ser verdadeiramente importante, e é um fator-chave. A forma como toda a equipa defende, como todos se esforçam e sacrificam... no voo de regresso dos Açores analisei uma das poucas oportunidades que concedemos ao Santa Clara e foi um ressalto depois de um livre. Vimos O Borja (Sainz) e o Deniz (Gül) a atirarem-se para tentar parar a bola, e quatro ou cinco jogadores a darem o corpo às balas para tentar manter a baliza fechada. Isso é essencial, porque todos sabemos que um golo a mais ou a menos pode fazer uma diferença enorme.”

Thiago Silva
“Ele vai acrescentar experiência e qualidade. Acredito muito na gestão do jogo e na partilha de recursos físicos e mentais. Ninguém discute o palmarés do Thiago (Silva), ele não estaria aqui se os últimos jogos não tivessem um certo nível nem se a sua mentalidade não fosse a correta. Ele vem para cá ajudar e apoiar a equipa. Eu não lhe fiz uma única promessa, só lhe disse que tanto podia jogar sempre ou entrar a cinco minutos do fim. Ele disse que tem perfeita consciência disso e também tem a ambição de fechar um círculo, porque ele começou a carreira europeia no FC Porto B e ganhou a Liga dos Campeões pelo Chelsea no Estádio do Dragão. Ele vem para cá com um pensamento claro e com um objetivo importante, que é jogar o Campeonato do Mundo pela seleção do Brasil e estar apto para o Mundial no verão. Acima disso tudo está a sua mentalidade e o seu compromisso. Ontem, quando o vi pela primeira vez, ele tinha um grande sorriso, muita energia, e é disso que precisamos. Estou ansioso por começar a trabalhar com um jogador que é um dos cinco melhores defesas da história do futebol.”

Samu
“Ele tem melhorado muito, graças ao seu compromisso e à sua mentalidade. No início da temporada tivemos de lhe explicar o benefício da nossa ideia. O Samu é incrível, é um atleta de elite quando ataca o espaço ou entra na área. Mas, para uma equipa que quer ser dominante e jogar no meio-campo adversário, há também algumas coisas que ele tem de melhorar. Ele está a trabalhar muito, percebeu o benefício de ser um avançado mais completo e que, no futuro, poderá jogar ao mais alto nível numa das três melhores equipas do mundo. Quando temos essa ambição para jovens jogadores, como ele, a única alternativa é melhorar, além de trabalhar. Realço a sua abertura para isso, para aceitar e para fazer trabalho individual que se costuma fazer nos sub-13. Isso requer muita humildade, muita autorreflexão e autoconsciência. Nisso o Samu surpreendeu-me imenso, ele está a trabalhar muito bem e a melhorar todos os dias, já é capaz de repetir ações intensas com outra frequência, de pressionar como uma besta, de correr para trás e de perceber quando é o momento de correr novamente para a frente. Ontem tivemos mais uma prova do seu crescimento e, neste caso, também quero mencionar a importância de Luuk (de Jong) e do Deniz (Gül). O Luuk, com a sua experiência, teve várias conversas com ele para explicar algumas coisas, para fazê-lo sentir a importância de certas coisas. Toda a gente tem um papel muito especial e queremos manter isso em 2026, é algo que devemos fazer mais e melhor nos próximos meses.

Victor Froholdt
“Como já disse, era um jogador que eu não conhecia. Quando o presidente e o departamento de scouting me falaram sobre ele fui ver alguns jogos e fiquei impressionado com algumas coisas. Mas, para ser sincero, é muito diferente vê-lo no vídeo e vê-lo ao vivo. Destaco a sua capacidade de desenvolvimento e de perceber tudo tão rápido. É algo que, honestamente, superou as minhas melhores expectativas. Estou feliz pela evolução, por tê-lo connosco e por vê-lo crescer em termos de personalidade e de liderança. Nunca irei esquecer o primeiro jogo dele no Dragão. Quando ele foi substituído o estádio levantou-se para o aplaudir e essa conexão só tem crescido. Ele é definição absoluta do ADN FC Porto.”

Rodrigo Mora
“Falando sobre surpresas positivas, este é outro bom exemplo. Na última temporada o Rodrigo (Mora) foi o menino de ouro, a estrela da companhia e fez coisas surreais para um jogador da sua idade. Esta época, claro, depois do Mundial de Clubes, surgiram algumas mudanças, novos jogadores e, mais importante do que isso, um novo estilo de jogo que requer uma certa adaptação. Para ele, para mim e para os adeptos não foi fácil perceber logo o que estava a acontecer, mas especialmente para ele, porque começou a época com o estatuto de superestrela e, no início, não teve o papel um papel tão importante e ficou a sensação de que não iria ter um papel principal. Toda a gente sabe o que aconteceu no mercado, toda a gente ouviu rumores sobre a Arábia Saudita e sobre a quantidade de dinheiro envolvida. Quando falámos, no final do mercado, fomos muito claros um com o outro e chegámos a um acordo sobre a forma como as coisas se iriam desenrolar. O meu papel como treinador é unir as pessoas e ter toda a gente a lutar pelo bem-comum. No cenário ideal, um treinador quer ter 25 jogadores que sejam autênticos soldados a caminhar na mesma direção. Esse é o sonho de qualquer treinador, a parte difícil é encontrar jogadores e seres humanos capazes de aceitar o seu papel, de aceitar decisões e de se desenvolverem em áreas que não são a sua especialidade para melhorarem os pontos fracos. Claro que não é uma evolução do zero aos 200 num só dia, mas dando cada vez mais nos treinos, dia após dia, nunca fazendo cara feia e aceitar jogar apenas alguns minutos… o seu impacto nos últimos jogos tem sido fantástico, bem como a sua evolução enquanto jogador e pessoa. Pensando no Rodrigo agora, a palavra que me vem à cabeça é «maturidade». Ele sabe quais são os seus objetivos individuais e as coisas em que precisa de melhorar. É um dos jogadores mais comprometidos com a equipa técnica em termos de desenvolvimento pessoal. Depois dos jogos ele fica a ver vídeos com os meus adjuntos e é um dos jogadores a quem não é preciso mostrar os clipes, porque ele vai para casa rever os jogos e analisa-os da forma que nós queremos. Estou muito grato e muito orgulhoso por ter um jogador com esta qualidade ao serviço do Clube. É um dos maiores talentos portugueses e não duvido que a carreira do Rodrigo vai ser ótima. Tudo começa no desejo de conseguir algo especial no FC Porto, que é o seu clube. Ele tem a ambição de celebrar títulos aqui e a sua carreira será, com toda a certeza, fantástica.”

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