João Brandão, treinador do FC Porto B, fez um balanço de 2025/26 em entrevista ao jornal O Jogo
“O início foi difícil” por “vários fatores”, desde logo por ser “uma equipa tão jovem e tendo tanta gente a vir do processo de formação”, mas a verdade é que a época do FC Porto B foi claramente em crescendo e culminou com “a valorização do quinto lugar, de igualarmos a melhor classificação e pontuação de sempre e termos tido, também, o maior número de vitórias desde que a liga se disputa a 18 equipas”.
Em entrevista ao jornal O Jogo, João Brandão considerou a época 2025/26 “positiva”, acima de tudo porque os resultados da equipa acompanharam a evolução individual dos atletas, entre os quais os “11 jogadores abaixo dos 18 anos” lançados pelo treinador durante esta caminhada. Por isso mesmo, acredita que “saem deste ano muito mais preparados e com um leque muito maior de aptidão para o futebol profissional”.
Feliz pela “chamada constante de jogadores da equipa B” aos trabalhos da equipa A, o treinador que há bem pouco tempo renovou contrato até 2028 diz que agora o desafio é manter estes jovens “focados” no que realmente interessa e ajudá-los a “não desperdiçarem o que os diferencia, uma qualidade excecional para jogar futebol”. Ainda assim, o alinhamento entre todos no Clube é e sempre foi total: “Tínhamos reuniões semanais entre a administração, equipa técnica da equipa A, equipa técnica da equipa B e equipa técnica dos sub-19”.
Uma época fértil em coisas positivas
“É uma época positiva, porque conciliámos o resultado coletivo com o desenvolvimento dos nossos jovens. A valorização do quinto lugar, de igualarmos a melhor classificação e pontuação de sempre e termos tido, também, o maior número de vitórias desde que a liga se disputa a 18 equipas, ganha maior significado porque também lançámos 11 jogadores abaixo dos 18 anos. Também lançámos dois juvenis e baixámos a média de idades, que nos últimos anos tinha andado próxima dos 22 anos, para os 19. Tudo junto, faz uma época muito bem conseguida, nunca abdicando do grande propósito da equipa B, que é preparar os jovens para a exigência da equipa A. E acho que esse ponto também foi conseguido, com algumas estreias e outros que estão na porta de entrada.”
A competitividade e a exigência da Segunda Liga
“O jogo que joga uma equipa dominadora como são as nossas na formação é diferente da Segunda Liga, é muito específico: a dimensão física, os duelos, a organização defensiva, a forma como gerimos as incidências emocionais do jogo. E aí foi um ponto em que a equipa cresceu. Leva a que eles tenham de ter uma fase de adaptação, mas também de crescimento. Saem do contexto da Segunda Liga muito mais preparados para a profundidade do jogo na exigência da equipa A e no futebol profissional. Olhamos para isso sempre como um desafio e não um obstáculo, como uma oportunidade e não tanto como algo que nos pode inibir de termos um bom desempenho. Os jovens são muito valorizados e falados pela dimensão técnica, capacidade de desequilíbrio no momento ofensivo, mas saem deste ano muito mais preparados e com um leque muito maior de aptidão para o futebol profissional.”
Não é como começa, é como acaba
“Houve vários fatores que contribuíram. O início foi difícil porque há a chegada de uma nova equipa técnica à equipa A, com uma metodologia diferente. Havia que criar dinâmicas de utilização dos nossos jogadores no dia a dia e na necessidade de ajudarmos na preparação dos jogos deles. Um processo de equilíbrio emocional e de foco que foi necessário fazer com os jogadores. Pelo que se vive hoje no futebol à volta destes jovens, a pressa que eles têm de abraçar novos desafios e dar os passos seguintes, foi importante pôr a cabeça no sítio e eles porem o foco total na equipa B. Depois, sendo uma equipa tão jovem e tendo tanta gente a vir do processo de formação, foi importante dar tempo e continuarmos muito resilientes e muito positivos no desenvolvimento destes jovens. Este processo adaptativo demora tempo, não há forma de o contornar.”
Uma semana de trabalho normal
“Dou o exemplo do nosso jogo com o Académico de Viseu, que coincidiu com o Sporting-FC Porto. Durante a semana, fomos chamados várias vezes a treinar com a equipa A, tendo nós dinâmicas e estruturas e comportamentos idênticos aos do Sporting. Isto leva a que o nosso jogo, a nossa preparação, não seja a prioridade. Chegámos a Viseu com um treino no qual olhamos para as nossas dinâmicas e a nossa forma de jogar. Toda a semana foi desenvolvida, quer ao nível do treino, quer ao nível de imagem, com comportamentos que não são os nossos. Para ser ainda mais preciso, por exemplo, num comportamento em bola parada, trabalhámos marcação homem a homem e o nosso princípio é à zona. Aconteceu, durante a semana, desenvolver uma linha de cinco, e depois chegarmos ao jogo e não ser essa a nossa estrutura defensiva, mas de quatro. Ou seja, há comportamentos, sejam eles macro ou muito mais individuais, como também aconteceu, que levam a que seja necessário adaptar algumas dinâmicas e estratégias. E, nesse aspeto, a equipa A, a B e a estrutura foram fundamentais para conseguirmos ir ao pormenor minimizar os efeitos colaterais desta fluidez e chamada constante de jogadores da equipa B.”
As mimetizações dos adversários da equipa A
“Sim, às vezes com uma equipa completa, noutras a nível setorial, ou mais individual.”
Tudo é pensado e trabalhado ao pormenor
“Podia chamar só a defesa ou a equipa completa para, principalmente nos dias aquisitivos da semana, desenvolvermos a oposição e o plano estratégico do adversário que defrontava a equipa A.”
A equipa A é sempre uma fonte de inspiração
“Esse foi o grande passo que demos enquanto equipa técnica. Tivemos sempre grande capacidade adaptativa, capacidade de refletir, esmiuçar e preparar muito bem o próximo jogo, diferenciando o fundamental do acessório. Para dar alguns exemplos: temos o nosso modelo de jogo e princípios, a nossa estrutura, os comportamentos que queremos ver desenvolvidos nos diferentes momentos do jogo, com bola, sem bola, situações de bola parada, transições, etc. Mas, depois, tínhamos de respeitar o que tinha sido a semana de trabalho, fosse a nível coletivo, setorial ou individual. Por exemplo, os nossos laterais treinaram, durante a semana na equipa A, projetados para dar largura e profundidade no corredor; e a nossa ideia são os laterais por dentro e de trás para a frente. Tínhamos de gerir o plano do nosso jogo, porque podia ser benéfico para nós os laterais estarem um baixo e outro mais projetado, mas tínhamos de ter em conta, também, o que tinha sido o processo durante a semana desse mesmo jogador.”
Todos os dias são de aprendizagem
“Olhámos sempre como uma oportunidade. Nunca nos agarrámos às lamentações e às desculpas, mas ao desafio de fazer melhor com o que temos. Olho para trás e vejo que a equipa técnica e os jogadores estão muito mais ricos ao nível do conhecimento do jogo, muito mais preparados para os desafios que o próprio jogo e o adversário nos cria, fruto deste processo. A diversidade de comportamentos que eles foram obrigados a entender e a desenvolver levou a uma flexibilidade a nível tático que, neste momento, é uma vantagem para nós, enquanto equipa, e para os jogadores para o seu futuro.”
Os desafios dos jovens e o mediatismo
“Estabelecemos planos de desenvolvimento e ajustámos, porque eles foram-nos surpreendendo com a evolução, fosse a nível físico, contexto de jogo, a nível emocional e social. O grande desafio para estes jovens é continuarem focados e não desperdiçarem o que os diferencia, uma qualidade excecional para jogar futebol. O ruído à volta deles é claramente um perigo, o mediatismo desafia-nos a todos a ter muito cuidado. É uma responsabilidade tremenda criar as melhores condições e bloquear o que pode ser prejudicial.”
O trabalho dos Campeões Mundiais de sub-17
“Ao longo da época, sofreram a nível físico com planos muito específicos. As necessidades do [Bernardo] Lima são diferentes das necessidades do Duarte [Cunha], as do Yoan [Pereira] são diferentes das do Mide. A determinada altura, perderam a possibilidade de jogar mais, porque necessitavam de se adaptar às cargas físicas. Houve uma decisão muito bem planeada, que era eles terem a oportunidade de sentir a exigência do futebol profissional e serem mais-valias na equipa B, sem perder minutos. Fizemos uma gestão com pinças entre treino da equipa A, treino e jogo na equipa B e jogo nos sub-19. Foram fundamentais para os sub-19 conquistarem o título, daí termos alguns ajustes de calendário que permitiram que eles, entre sexta e segunda, mas também entre sábado e domingo e sexta e domingo, estivessem nos sub-19 e na B. Muitos deles também tiveram momentos de treino na equipa A que não permitiam que estivessem disponíveis, ou pelo menos para o tempo todo, na equipa B. As pessoas não têm obrigação de conhecer o processo, mas eles percebem. A tranquilidade e a energia que põem em cada momento é a maior prova de que eles percebem o que estamos a preparar para eles.”
Tudo alinhado entre todos
“Tudo. Tínhamos reuniões semanais entre a administração, equipa técnica da equipa A, equipa técnica da equipa B e equipa técnica dos sub-19.”
Tiago Silva, Bernardo Lima e André Miranda Campeões Nacionais pela equipa A
“É a maior de todas as vitórias. Não há nenhuma vitória ou classificação da equipa B que supere esse objetivo. Foi nesse contexto que criamos uma equipa B com uma média de idades mais baixa. Mas é importante percebermos que o crescimento tem de ser sustentado numa equipa que lhes dá o conforto e o ambiente propícios. É necessário, por vezes, injetar jogadores com um pouco mais de experiência, com um ou dois anos de II Liga, para que estes jovens tenham um nível de treino alto e exigente.”
Os diferentes momentos pedem estímulos diferentes
“Há diferentes fases da formação em que se deve adaptar os estímulos. Para mim, é fundamental perceber o que o jogador pode acrescentar à equipa. Se é um jogo com menos tempo de decisão, quem decide melhor e é mais rápido, quem consegue criar espaços, seja através do passe, do movimento ou do drible, tem de ser estimulado a fazer isso com maior regularidade. Quanto mais vezes eles fizerem, melhor vão afinar o momento e a velocidade de o fazer. Não posso penalizar o Duarte Cunha pelo número de perdas de bola no drible. Tenho é de criar condições coletivas para que ele receba a bola em condições ideais, para que depois sobressaia no que é forte.”
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