Primeira parte da entrevista de Francesco Farioli à Sport TV
Horas depois da vitória nos Açores (1-0) que permitiu completar a melhor primeira volta da história do campeonato, Francesco Farioli concedeu uma grande entrevista à Sport TV durante a qual abordou vários temas do passado, presente e futuro. Na primeira parte dessa extensa conversa, o técnico do FC Porto falou sobre os primeiros tempos na Invicta, o cenário que encontrou à chegada, explicou o conceito de “La Famiglia Portista”, recordou a passagem pelo Ajax e explicou como é que um treinador de 36 anos lidera um grupo de jogadores pouco mais novos e até mais velhos.
O Estádio do Dragão
“Estamos nesta zona específica (Tribuna) porque foi aqui que eu assisti ao meu primeiro jogo no Estádio do Dragão, há alguns anos, contra o Inter. Estava sentado num daqueles lugares, com uma perspetiva diferente da atual, mas o Dragão é um estádio onde já me sinto em casa.”
Clube e cidade
“A energia, o ambiente e o apoio são sempre espetaculares neste estádio. Sentimos imensa paixão pelo futebol e, especialmente, pelo FC Porto. Quando andamos na rua ou vamos a um restaurante, as pessoas demonstram paixão pelo Clube e fazem-nos sentir a importância do que fazemos, a responsabilidade que isso acarreta, e esse sentimento é um privilégio.”
Na Invicta como em casa
“A minha mulher, a minha filha e o meu filho estão sempre aqui. A minha filha já é uma verdadeira portista, está sempre a falar na família portista. Tem havido muitos episódios engraçados, porque quando alguém pergunta quem somos ela responde “somos a família portista”. É uma ligação muito forte, em casa temos o canal YouTube do FC Porto sempre a dar, ela já conhece todas as músicas do Clube e todos os cânticos dos adeptos. É algo espetacular, faz-me sentir um privilegiado pelo que faço e não poderia estar mais agradecido.”
La Famiglia Portista
“É algo de que tenho vindo a falar desde a conferência de imprensa, depois da primeira reunião que tive com o presidente, quando ele me transmitiu os valores do Clube. Quando falamos sobre trabalho duro, dedicação, compromisso, paixão, o desejo de colocar valentia e coragem no campo são tudo atributos da minha personalidade e do futebol que eu gosto de ver. Quando o presidente começou a falar de todas essas coisas, a minha mente começou a processar toda a informação e eu senti imediatamente que este tinha sido o passo certo para mim. Muitas coisas aconteceram nestes seis meses e a família portista faz-nos sentir em casa muito rapidamente.”
Estilo de liderança
“Cada qual é como é. Quando comecei a treinar era muito jovem, e ainda sou, e agora temos um jogador mais velho do que eu (Thiago Silva). Isso sempre fez parte da minha rotina, trabalhar com pessoas mais velhas, e acredito que devo ser fiel a mim próprio. Não sou bom a esconder as emoções, as pessoas percebem quando me sinto bem e quando me sinto mal. A minha forma de liderar o grupo é muito simples: baseia-se em elementos inegociáveis, os elementos que fizeram o FC Porto ser o FC Porto. A ligação entre mim próprio, o Clube e o grupo nasceu muito rapidamente. Sou uma pessoa direta, quando há algo de que não gosto, tento sempre corrigir e, se não for suficiente, procuro encontrar outras opções. Se houver uma relação baseada na honestidade e na transparência, mesmo que às vezes a verdade seja dura, acredito que os jogadores respeitam mais isso do que um sorriso ou uma palmada nas costas. Não significa que este seja o caminho certo, mas é o caminho que me faz sentir confortável, porque é assim que eu sou.”
O ambiente à chegada
“A primeira reunião que tive com o presidente foi especial, senti que formámos uma ligação imediata. As últimas temporadas não foram as melhores para o FC Porto e eu também vim de uma época difícil de descrever. Agora, com a cabeça fria, eu diria que foi uma temporada positiva, mas claro que a dor do que aconteceu no último mês é algo que vai viver comigo para sempre. Mais calmamente, tentamos fazer uma reflexão, analisar, encontrar respostas, mesmo que às vezes seja preciso aceitar e não questionar. As minhas primeiras palavras para o grupo foram muito claras, falámos sobre as nossas mágoas e não é algo que nos envergonhe, é algo que tem de estar sempre presente na nossa memória. Viver experiências e momentos que nos deixam desapontados faz parte da vida e parte do desporto. Essa tem de ser uma motivação extra, tem de ser o combustível para termos vontade de melhorar diariamente.”
2024/25 em Amesterdão
“Começámos no dia 15 de junho, porque tínhamos a pré-eliminatória da Liga Europa e o primeiro objetivo era qualificarmo-nos para uma das duas competições, a Liga Europa ou a Liga Conferência, sabendo que tínhamos de ganhar seis jogos para entrar, e terminar no top-3 do campeonato. Ganhámos muitos jogos, acabámos a temporada com 78 pontos, 39 na primeira volta e 39 na segunda, e isso demonstra consistência, mas o que fica na memória de todos é a forma como as coisas acabaram. O Jordan Henderson, que era o nosso capitão, já falou várias vezes sobre isso, sobre as dificuldades que enfrentámos e da nossa evolução. O atraso na temporada anterior foi de 35 pontos para o PSV e 27 ou 28 para o Feyenoord, nos dérbis contra o Feyenoord tínhamos sofrido 10 golos e marcado apenas um. Pondo as coisas em perspetiva, acho que a análise a frio é positiva, mas claro que temos cicatrizes porque perdemos o título por um golo numa temporada em que ninguém esperava que fossemos campeões. Por um lado foi positivo, mas a dor viverá connosco para sempre. Ainda assim, as memórias do que vivemos em Amesterdão e a ligação à cidade e aos adeptos é ótima. Agora vamos tentar dar um passo em frente na nossa carreira, sabendo que a temporada é longa e, como tenho dito, é uma maratona. Estamos a meio caminho nessa maratona, ainda há muito para fazer, muitas coisas para melhorar e estamos prontos para o desafio.”
Adepto de um futebol defensivo?
“Cada país tem o seu próprio estilo, mas eu tornei-me um globetrotter depois de trabalhar em tantos campeonatos. A minha equipa técnica também andou pelo mundo todo e eu vejo isso como uma força. Claro que há dificuldades, porque dentro do nosso staff existem pessoas de muitas culturas, que falam línguas diferentes, que gostam de ter abordagens distintas. Isso torna-nos uma equipa técnica mais unida, mais completa, dentro da qual as pessoas têm opiniões diferentes e discutem-nas abertamente. É verdadeiramente especial e é algo com que eu sonhava desde o meu primeiro emprego, porque sempre quis ter uma equipa técnica forte.”
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