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Terceira parte da entrevista de Francesco Farioli à Sport TV

Horas depois da vitória nos Açores (1-0) que permitiu completar a melhor primeira volta da história do campeonato, Francesco Farioli concedeu uma grande entrevista à Sport TV durante a qual abordou vários temas do passado, presente e futuro. Na terceira parte dessa extensa conversa, o timoneiro portista falou o estado da arbitragem e da imprensa em Portugal, o papel do VAR durante os 90 minutos, os casos que têm marcado a agenda mediática, a morte de Jorge Costa, os ensinamentos que o lendário Capitão lhe transmitiu e sobre os próximos tempos ao leme do FC Porto.

Arbitragem e imprensa
“Nas minhas experiências anteriores tive alguns anticorpos, porque em Itália os árbitros também são tema de conversa e na Turquia toda a gente pode imaginar o que acontece. Eu nunca me coloquei no centro de uma situação polêmica, nos quase 200 jogos que fiz como treinador principal devo ter visto dois ou três cartões amarelos. Comporto-me bem, respeito os árbitros e sou respeitado por eles. É isso que eu quero. Em Portugal a arbitragem é um tema de conversa e apercebi-me disso logo quando cheguei, bastou abrir as redes sociais na altura da Supertaça. Eu acredito que temos todos a responsabilidade de acalmar o ambiente, mas isso só acontece quando forem tomadas algumas decisões num nível superior. Há pessoas que falam muito durante a semana e não é benéfico que os jogos acabem e haja logo dois ou três programas televisivos em que se fala mais da arbitragem do que dos jogadores. Nos jornais há páginas e páginas de análise ao trabalho dos árbitros. Num país com tanto talento, tantos bons jogadores e treinadores devia falar-se mais sobre futebol, mas o que todos queremos é justiça na competição.”

O papel do VAR
“Para mim há outro aspeto muito relevante, que é o uso do VAR. Não só em Portugal, mas em geral. Quando o VAR apareceu era suposto ser um instrumento para ajudar o árbitro a tomar decisões melhores e para tornar o jogo mais justo, com menos erros. A realidade é que, hoje em dia, o VAR é um instrumento para avaliar os árbitros. Se eles forem chamados pelo VAR podem perder um ponto no ranking e se mantiverem as decisões… Em vez ajudar e de facilitar a vida dos árbitros de alguma forma, estamos a criar um monstro porque paira o pânico sobre cada decisão. É muito difícil ser árbitro, porque o futebol joga-se a uma velocidade cada vez maior e há contra-ataques de 80 metros com jogadores a correrem a 37 ou 38 quilómetros por hora. Não é fácil acompanhar. Os árbitros assistentes, o quarto árbitro, o VAR e o AVAR devem ter um papel de suporte e preocupar-se com a justiça do jogo, em ter uma competição honesta e em tentar minimizar os erros.”

É possível ganhar sem falar de arbitragem?
“Esperemos que sim. Eu gostaria de falar mais sobre os jogos, mas temo-nos deparado com alguns casos difíceis de compreender. Vou dar um exemplo, acho que foi um dos últimos jogos aqui no Dragão, uma ação do Pepê. O árbitro assinalou falta fora da área, mas ele sofreu falta dentro da área. Podemos discutir se era falta ou não, eu aproximei-me do quarto árbitro e sugeri que fossem ao VAR, porque sendo falta seria penálti e não sendo falta seria cartão amarelo para o Pepê. Não podemos aceitar que seja assinalado livre direto quando toda a gente vê que a falta foi dentro da área. Eu prefiro ter de lidar com um cartão amarelo e um livre contra do que com um penálti transformado em livre. Quando falo em justiça refiro-me a casos como este.”

O que leva os árbitros a errar?
“Não é fácil ser árbitro em Portugal, porque a pressão é muito alta. Já tenho tantas coisas para fazer como treinador que não faz parte do meu trabalho julgar isso. Acho que a utilização do VAR deve ser revista, não só em Portugal em todo o mundo, e que o VAR deve ser usado de uma forma diferente. Espero que a pressão diminua e que possamos ter uma competição mais justa e honesta, acho que é isso que todos os adeptos e clubes pretendem.”

Jorge Costa
“Infelizmente não pude passar muito tempo com ele, mas todos sabemos quem foi, é e será o Jorge (Costa) na história do FC Porto. Sentimos a sua presença em todos os momentos, o seu legado sempre estará aqui, não só na camisola número 2, mas no modo de ser e de estar. As homenagens do futebol nacional e internacional dizem muito sobre a lenda e o eterno Capitão que ele foi. No último dia do ano, eu estava em casa e, como já disse, nós temos o canal YouTube do FC Porto sempre aberto. Meti a dar o vídeo da minha apresentação, que começa na viagem desde Amesterdão, e o Jorge estava em quase todas as imagens, a tentar ajudar-me transmitir-me o que é o FC Porto, o que o FC Porto representa e a forma como eu deveria abordar esta experiência.”

Memórias do “Bicho”
“Falou-me sobre a mentalidade trabalhadora, sobre o espírito, a ligação à cidade, a obrigação de suar a camisola e estava connosco todos os dias, assistia aos treinos, apreciava os jogadores e via-os sofrer, às vezes quase vomitando. Depois do jogo contra o Atlético de Madrid, ele disse ao Tiago (Madureira) e ao Henrique (Monteiro): «Voltámos a ter uma equipa». Esse é o mote para a nossa época, temos o compromisso e a responsabilidade de honrar a memória do Jorge. No Dragão está hasteada uma bandeira que o mantém sempre por perto. Vamos lutar por ele, pela sua família e pela família portista.”

A renovação de contrato
“A prioridade aqui é fazer as coisas bem em prol da equipa. Todos queremos continuar a caminhar na direção certa. Esta talvez seja a primeira vez na minha curta carreira em que eu sinto que é possível construir coisas boas em cima de outras coisas boas. Na última temporada achei que era impossível lidar com as exigências e aqui vejo que temos uma equipa jovem, um capitão que renovou há alguns dias e que é um grande líder, um ser humano espetacular e um profissional de excelência. Temos vários jogadores que podem desenvolver-se, outros talentos interessantes na equipa B, que também nos poderão ajudar no futuro, por isso sinto que estamos no caminho certo. Vamos continuar a trabalhar juntos, mas, sobretudo, focados no presente e no próximo passo. O próximo passo é o estágio no Algarve, com uma semana de bom trabalho. Os jogadores podem estar tão felizes por terem que fazer umas corridas extra, mas sabem bem porque é que as fazem e estão todos comprometidos com o desejo de fazer uma boa temporada e de fazer os nossos adeptos felizes.”

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