André Villas-Boas assina o editorial da revista Dragões
“Caros Portistas,
Maio devolveu-nos ao lugar que perseguimos com trabalho, com método e com uma ambição que não aceita atalhos. Somos Campeões Nacionais pela 31.ª vez. E esse número tem um peso que não se discute: faz do Futebol Clube do Porto o Clube com mais títulos no futebol nacional. É História escrita com factos, não com contabilidade criativa. É uma marca inesquecível que fica para sempre associada a este grupo e a esta época.
O título não caiu do céu. Não foi um acaso. Foi uma construção. Foi uma época inteira a exigir união, concentração e coragem. Foi um balneário a fechar fileiras em torno de um objetivo comum. Foi um grupo focado, disciplinado, solidário, capaz de sofrer, capaz de reagir, capaz de responder quando muitos esperavam que vacilássemos.
E foi, também, uma massa associativa e adepta que nunca nos largou. Com o Dragão ligado, com a cidade presente, com a região inteira a empurrar. Nos momentos bons, nos momentos duros, nos momentos de dúvida. O FC Porto ganhou porque esteve junto, sempre!
O título trouxe-nos à memória duas dores que não se apagam. Duas perdas irreparáveis dentro da nossa casa. Jorge Nuno Pinto da Costa e Jorge Costa.
O primeiro, o Presidente dos Presidentes. O homem que transformou o FC Porto numa potência, que colocou o nosso emblema no topo da Europa e do mundo, que fez da vitória uma cultura e da ambição um hábito.
O segundo, o nosso Bicho. Um capitão e um símbolo. Um Portista absoluto. Um homem de palavra e de caráter. Um líder dentro e fora do campo. No Olival, no centro de treinos que hoje ostenta o seu nome, vimos de perto a morte de um amigo e de uma lenda. E esse dia ficou, tristemente, gravado em todos nós.
É por isso que este título não é apenas uma conquista desportiva. É um Porto de Honra. É um gesto de memória. Hoje honramos com este campeonato aquilo que eles foram e aquilo que nos deixaram. O Legado. A exigência. A coragem. A frontalidade. A forma de estar. A crença de que, no FC Porto, não há destino, há trabalho. Não há fatalismo, há reação. Não há resignação, há luta.
O que vivemos durante uma época plena de emoções não terminou com a conquista do campeonato. As equipas de Marketing e organização de eventos e toda a estrutura portista e do Município do Porto uniram esforços para presentear os adeptos do FC Porto com duas festas lindas. Duas festas verdadeiras. Duas festas à Porto!
A primeira, no Dragão, contra o Alverca. A emoção do apito final, o abraço coletivo, a libertação. E um momento que jamais esqueceremos: a bandeira do Jorge Costa a descer ao relvado como se ele nos abraçasse. Como se estivesse ali, a festejar connosco, a ganhar connosco. Foi um momento de silêncio interior, no meio do barulho. Um daqueles momentos que ficam para sempre.
A segunda, nos Aliados. Da Ribeira aos Aliados, pelo rio, pelas margens, pelo centro histórico. Uma maré humana. Uma cidade inteira. Uma simbiose perfeita entre Clube, Cidade e massa Associativa. O FC Porto é cada vez mais um símbolo de toda uma região, mas é, sobretudo, um Clube do todo: da união, da força, da resistência e da conquista. E digo-o hoje com orgulho absoluto, sem filtros e sem medo de parecer excessivo: ser Portista é aquilo que mais sinto na pele e dentro de mim.
Este título tem nomes. Tem trabalho. Tem método. E tem liderança.
Francesco Farioli chegou, viu e venceu. Percebeu rapidamente o que é o FC Porto, o que é o Porto e o que significa carregar este símbolo num país que tantas vezes tenta empurrar o Norte para a margem e a nossa ambição para a “exceção”. Ele não veio para se adaptar ao “ruído”. Veio para respeitar o nosso ADN. E adaptou-se. Com altruísmo. Com exigência. Com coragem. Com detalhe. Com uma capacidade rara de orientar e motivar um grupo inteiro para o sucesso. Este 31.º título tem a marca coletiva do plantel, mas tem também a marca de um treinador que soube criar unidade, foco e crença, mesmo quando o caminho apertou.
O FC Porto mudou muito de uma época para a outra. Entraram e saíram muitos jogadores e aqueles que aqui chegaram cedo perceberam a nossa ambição e a exigência diária de representar este Clube. Destaco também aqueles que transitaram da época passada para esta e que, dentro de si, se transformaram pessoalmente e profissionalmente para, com rigor e disciplina, darem o máximo de cada um por esta vitória. Bem hajam!
Parabéns ao Diogo Costa por ter liderado esta equipa exemplarmente esta época e ao Victor Froholdt por ter conquistado o prémio de melhor jogador e melhor jovem jogador do campeonato.
Este título tem, também, uma estrutura inteira por trás. Tem uma máquina que funciona todos os dias, com pessoas que não aparecem na fotografia, mas sem as quais nada acontece. Por isso, hoje, o meu agradecimento é total e sem exceção: à administração, à Direção, à comissão executiva, à gestão do futebol, ao scouting, à formação, às áreas médicas, à performance, à logística, aos serviços, aos departamentos do Clube e do Grupo FC Porto, desde o Olival ao Dragão. Um mar de gente em torno de um objetivo. Obrigado e parabéns!
O fim de época traz sempre despedidas. E estas despedidas ficam gravadas na memória porque deixam marcas humanas e desportivas. Thiago Silva, Luuk de Jong, Moffi e Fofana contribuíram, e muito, para a conquista do título.
Mas quero destacar Thiago Silva, pela sua humanidade, pelo exemplo, pela forma como se entregou a este Clube, por ter vindo fechar uma ferida que estava aberta desde 2004. Obrigado, do fundo do coração, por teres regressado ao FC Porto.
Na Formação, somos Campeões Nacionais de Sub-19 e Sub-17! Isto não é um detalhe. É o jogador formado no Porto a voltar a impor-se. É a confirmação de um projeto formativo que queremos cada vez mais forte, mais estruturado, mais exigente e mais próximo dos nossos miúdos. E estes títulos mostram-nos que estamos a fazer bem. Os meus parabéns a toda a estrutura técnica e aos jogadores de ambos os escalões, mas sobretudo ao José Tavares, Diretor da Formação, que em dois anos transforma profundamente a formação do FC Porto.
No futebol feminino, somos Campeões Nacionais da Segunda Divisão, com subida à Primeira Liga, e chegámos à final da Taça no Jamor, que ficou marcada por uma excelente exibição, em reflexo de tudo o que elas nos deram esta época, desde o jogo ao desejo, à intensidade e à atitude. E houve até quem, do lado de lá, tivesse de olhar para as bancadas para “golear” em assistência. Um patético lembrete daquela sobranceria de grandeza que, durante anos, se instalou no masculino, até perceberem a força do FC Porto, o que ele se tornou e aquilo que, muito em breve, também se tornará no futebol feminino. O FC Porto entrou para ficar. E entrou para competir. E quando o FC Porto entra para competir, muda o contexto.
Nas modalidades, continuámos a ganhar. Somos Campeões Nacionais de voleibol feminino e conquistámos a dobradinha. Isto é ecletismo com ambição. É trabalho com seriedade. É Porto em todo o lado. Parabéns às atletas, equipas técnicas, aos nossos patrocinadores, Nici e Cotesi, e a toda a estrutura das modalidades, ao Mário Santos, que sustenta vitórias e constrói cultura.
E não ficámos por aqui: somos Campeões Europeus de hóquei em patins pela quarta vez. Esta equipa tem sido um orgulho enorme esta época. Hóquei de excelência, que encanta, virado para o ataque, em que o mesmo grupo de jogadores se reinventou, de novo, sob a liderança do Paulo Freitas, para tocarmos o céu mais uma vez com esta conquista. Parabéns a todos.
E enquanto celebramos, continuamos a construir. Porque vencer é um momento, mas sustentar a vitória é um projeto. O evento da primeira pedra do Centro de Alto Rendimento foi mais do que simbólico. Foi uma declaração de futuro. Nos próximos meses, com as movimentações de terras e o trabalho que temos pela frente, estamos a dar corpo a um projeto fundamental para o FC Porto. Um projeto que reforça a nossa capacidade de formar, desenvolver, recuperar e potenciar talento.
Caros Portistas,
Somos campeões. Somos o Clube com mais títulos no futebol nacional. Vivemos dores que nos marcaram e vitórias que nos elevaram. Fizemos história. E agora digo-vos o que digo sempre, com a mesma convicção e com a mesma fome: queremos mais. Somos o FC Porto e o nosso compromisso com a vitória é inegociável.
Viva o Futebol Clube do Porto!”
A edição 474 da Dragões chegará, brevemente, às FC Porto Stores. Até lá, encontra-se disponível na sua versão digital. É fácil e gratuito.
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