Segunda parte da entrevista de Francesco Farioli ao Porto Canal
A festa que juntou centenas de milhares de portistas nas ruas da Invicta para festejar a conquista do 31.º campeonato da história do Clube continua bem fresca na memória, mas no horizonte estão já os “novos desafios, novas batalhas e novas aventuras” que 2026/27 vai trazer, por isso há que manter o mesmo “espírito” e regressar ao trabalho com a consciência de que a exigência vai aumentar.
“Os jogadores que vão ficar e os outros que ainda virão serão capazes de perceber que temos de dobrar o esforço, porque o FC Porto precisa disso para ganhar”, afirmou Francesco Farioli, entre muitas outras coisas, numa grande entrevista ao Porto Canal - cuja primeira parte pode ser lida aqui. “Eu e o presidente estamos muito alinhados”, acrescentou o treinador Campeão Nacional a propósito dos objetivos traçados para a nova época.
Sublinhando que “jogar no Dragão é um fator-chave” porque dá “energia e consistência” à equipa”, o técnico italiano quer continuar a ver “11 animais a correr atrás da bola para ajudar a equipa a conseguir o resultado”. O Bicampeonato será “a prioridade”, mas também vem aí a Liga dos Campeões e, “neste Clube, ninguém entra competições apenas para participar, porque é preciso jogar com uma certa atitude”.
O futuro é já a seguir, mas, no momento de olhar para trás, Francesco Farioli não esqueceu a “Famiglia Portista”: “Os nossos caminhos cruzaram-se no momento certo. O FC Porto foi o Clube certo para treinar e eu fui uma das pessoas certas para assumir esta posição e esta responsabilidade. Ando pelas ruas com orgulho por representar um Clube desta dimensão. É algo que me enche de orgulho e me deixa muito feliz”.
Modo de vida
“Acredito que há duas maneiras de ver as coisas, dentro de um conceito filosófico. O mundo é feito de entropia, que é o caos, e de negentropia, que é a vontade de fazer as coisas de uma certa forma. Eu estou mais ligado a essa segunda forma de viver. Gosto de controlar tudo o que é possível controlar, de criar uma linguagem comum que os jogadores compreendam facilmente e foi isso que aconteceu este ano. Sem uma linguagem comum, um sentimento comum e uma compreensão comum do que estamos a fazer não é possível mudar nove ou dez jogadores de um jogo para o outro, num espaço de três dias, numa competição diferente e com exigências diferentes. Quando jogamos tantas vezes temos de saber quem somos e o que temos de fazer. Depois, claro que os outros treinadores adversários também trabalham bem à procura de soluções para complicar o nosso trabalho, mas, numa época longa, a capacidade de ser consistente… também temos de ter espírito crítico connosco, porque nem tudo o que defendemos está certo e temos de conseguir adaptar-nos. Como treinador e equipa técnica temos sempre isso em mente. Somos autocríticos e conscientes de que o objetivo coletivo é sempre o mais importante.”
Crescimento pessoal e coletivo
“Quando comecei era um treinador que queria fazer as coisas de forma diferente e lembro-me de ver as pessoas de fora assinalarem determinadas inovações no início da minha carreira. Mas depois, quando comecei a trabalhar em clubes desta dimensão, que jogam para ganhar em todos os jogos e em todas as competições, o meu ego e a minha vontade de continuar a crescer não podiam superar a obrigação de ter resultados. Depois do que vivi nas últimas duas épocas, principalmente nesta, já não me importo com a crítica. Ouço o que dizem, mas mantenho-me fiel ao que sou e ao meu plano, não mudo de ideias cada vez que alguém me critica. Disseram que éramos previsíveis e que não jogávamos bem, mas numa época com tantos jogos e tão pouco tempo para treinar é muito difícil ser sempre brilhante.”
Rescaldo de 2025/26
“Conseguimos competir em três frentes, ganhámos a Liga e fomos longe nas outras duas competições. Na Liga Europa só fomos afastados por causa de um autogolo e de uma expulsão aos sete minutos que mudaram tudo. Fizemos o suficiente para seguir em frente e, na Taça de Portugal, estivemos muito próximos de passar à final depois de dois jogos em que merecíamos mais. É como é. Numa época positiva ganhámos o campeonato, que era uma das prioridades do Clube depois de quatro anos sem o título, mas fica o sabor amargo porque poderíamos ter conseguido algo mais. Este grupo merecia mais, mas temos de pesar tudo, nomeadamente as lesões graves do Samu, do Luuk (De Jong) e do Nehuén (Pérez) e outros constrangimentos de que fomos falando durante a época. Se pensarmos nisso, fazer 88 pontos foi um grande feito para o Clube, mas o nosso foco já está na próxima temporada, com novos desafios, novas batalhas e novas aventuras.”
O mercado de transferências
“Quando começamos uma nova temporada, o meu papel é coordenar as diferentes áreas para que haja uma ligação entre as exigências do Clube e o trabalho que o Clube vai fazer no mercado. Eu e o presidente estamos muito alinhados, já estávamos nos últimos dois mercados, e estamos ainda mais neste. Nunca tive este apoio nem me senti tão compreendido noutro clube. Muitas vezes o presidente propõe-me algumas ideias que eu também lhe ia propor. Se, porventura, tivermos ideias diferentes, basta explicar a ideia e alinhamo-nos muito rapidamente. Estou muito grato pela ligação que temos, pelo que o departamento de scouting está a construir e pelo trabalho que o staff técnico tem feito em coordenação com o scouting.”
Preparativos para a nova época
“A parte que vai para o campo já é uma imagem do trabalho que desenvolvo com o Callum Walsh, que é o nosso preparador físico, e tentamos perspetivar uma imagem a curto e a longo prazo. Normalmente temos um período de preparação de seis semanas, mas no ano passado não tivemos tanto tempo, por causa do Mundial de Clubes, e isso exigiu muita adaptação do staff, seja do Dave Vos ou do Felipe Sánchez que já estavam comigo na última temporada, como do Lino Godinho, que se juntou a nós este ano, bem como do Lucho González e do André Castro. As nossas mentes desenham em conjunto todas as sessões de treino tendo em conta a gestão do grupo e aquilo que achamos que é a melhor planificação possível. Tudo isto está no papel, nos arquivos dos nossos computadores, mas depois há a outra parte que já não é tão linear. Quando começas a conhecer os jogadores e o grupo, quando constróis uma conexão com todos eles e essa sinergia não está no papel. Temos de criar um compromisso de sermos transparentes e honestos, porque a verdade nua e crua é melhor do que esconder a realidade. Se formos sortudos e tivermos um grupo de homens que entendem a importância de reduzir o ego pelo bem da equipa, então estamos num patamar em que podemos competir para ganhar e ter sucesso. Há sempre uma linha muito ténue entre ganhar e perder que não conseguimos controlar, mas podemos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para ganhar. Esse foi o nosso truque, sem segredos, e é algo que teremos de fazer ainda melhor na próxima época.”
Os jogos grandes
“Não podemos negar o peso desses jogos. O primeiro clássico em Alvalade, depois de uma época difícil, ajudou-nos a perceber que estávamos no caminho certo, mas sabíamos que o trabalho não estava feito. Ainda assim, demos um passo na direção certa e isso ajudou-nos. Os bons resultados e as boas exibições ajudam-nos a acreditar. Contudo, não podemos esquecer o jogo contra o Casa Pia, que nos deixou com uma vantagem menor sobre os nossos rivais, e logo na semana seguinte tivemos um clássico contra o Sporting em casa. Nesses momentos, a reação da equipa é crucial e a coragem que demonstrámos nesse jogo foi a melhor resposta que podíamos dar, apesar do resultado e de termos concedido um penálti no último minuto. Claro que durante a temporada vai haver momentos em que estamos no auge e outros em que baixámos de ritmo. Fizemos uma primeira metade da época quase perfeita, com 49 pontos em 51 possíveis. Claro que os jogos grandes ficam na memória, mas não podemos esquecer alguns jogos como o de Moreira de Cónegos, com o golo do Deniz Gül, o jogo em casa do CD Nacional com um golo do Jan Bednarek e uma grande defesa do Diogo Costa, bem como o jogo em casa do Vitória SC. Há tantos jogos durante a época e, por vezes, nem percebemos o peso que eles podem ter, mas no final entendemos que fizeram a diferença.”
Lar doce lar
“Jogar no Dragão é um fator-chave, porque dá-nos consistência e energia. De todos os jogos que vencemos, a minha parte preferida sempre foi o momento em que agradecemos aos adeptos e vemos as nossas famílias na bancada. É nestes momentos que nos sentimos ligados às nossas pessoas e são estes momentos que nos dão um boost para o próximo jogo.”
A união faz a força
“O espírito de união e de lutar uns pelos outros transferiu-se para dentro de campo e fez com que fossemos a melhor defesa da Liga. É a terceira vez consecutiva que termino uma época com a melhor defesa da Liga, já tinha acontecido no OGC Nice e no Ajax. Isso surge com o trabalho e com a atitude defensiva que a equipa tem. O facto de ter jogadores como o Diogo (Costa), o Jan Bednarek, o Jakub Kiwior e o Thiago Silva ajuda, mas também não nos podemos esquecer do trabalho dos jogadores da frente e dos sacrifícios que eles fazem. Ainda no último jogo em casa, contra o Santa Clara, perdemos a bola e vimos 11 animais a correr atrás da bola para ajudar a equipa a conseguir o resultado. É este o espírito que queremos ter na próxima temporada. Não sei se esta é a chave para vencer, mas tenho a certeza de que é a chave para nos colocarmos em condições de competir.”
Planos para 2026/27
“A Liga vai ser a nossa prioridade, mas também será mais competitiva, porque os nossos adversários sabem o que fizemos esta época e vão colocar mais energia e investir mais para reduzir a distância. Temos de abordar a época com a mesma fome que tivemos na última temporada, porque o maior erro é sentir que isto é suficiente. Estes dias são muito importantes para digerirmos o que aconteceu e limparmos a cabeça. Temos um verão para preparar o arranque da próxima época e vamos querer abordar cada jogo com o mesmo desejo. Temos grandes adversários pela frente na Liga e vamos jogar a Liga dos Campeões. O FC Porto é um dos clubes com maior participação na Liga dos Campeões e, neste Clube, não entramos nas competições apenas para participar, queremos jogar com uma certa atitude. Esta vai ser a minha primeira experiência na competição. Do que vejo e da informação que recolhi junto de alguns treinadores que já participaram na prova, a Liga dos Campeões é uma competição diferente, com exigências diferentes e com um nível muito elevado, o maior que podemos enfrentar. O ambiente nos estádios vai desafiar-nos em todos os contextos, mas não podemos esquecer-nos das competições internas, a começar pela Supertaça, que está já ao virar da esquina.”
Com o Bicampeonato na mira
“Para vencer duas vezes, é preciso vencer a primeira e depois fazer tudo de novo. É claro que é essa a nossa ambição, expectativa e desejo. Quando entrei pela primeira vez no Museu FC Porto e vi a história deste Clube, com todos estes troféus e conquistas lendárias, percebi a dedicação das pessoas que trabalharam para elevar o Clube. Isso fez-me sentir uma grande responsabilidade, mas também um grande privilégio por estar neste papel e ter a oportunidade de liderar uma das maiores instituições do futebol europeu mundial. É algo único. Ter a oportunidade de ganhar troféus no FC Porto é algo que me motiva desde o primeiro dia e é o desejo de continuar a fazê-lo que vai liderar as minhas decisões no verão e o meu espírito nos próximos desafios. O que temos pela frente será ainda mais complicado do que aquilo que já fizemos, mas temos de o encarar com o espírito certo. Os jogadores que vão ficar e os outros que ainda virão serão capazes de perceber que temos de dobrar o esforço, porque o FC Porto precisa disso para ganhar.”
La Famiglia Portista
“Os nossos caminhos cruzaram-se no momento certo. O FC Porto foi o Clube certo para treinar e eu fui uma das pessoas certas para assumir esta posição e esta responsabilidade. Ando pelas ruas com orgulho por representar um Clube desta dimensão. É algo que me enche de orgulho e me deixa muito feliz.”
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